(Este é o segundo post de uma série que compara a tradução e a dança. Para ver o primeiro, clique aqui.)

Não esqueci de vocês curiosos com o que eu tanto falo de dança. Por incrível que possa parecer, é muito parecido com traduzir.

Dança é comunicação. Do mesmo modo que cada pessoa tem seu jeito único de falar e expressar suas ideias, seu sotaque e outras idiossincrasias linguísticas, cada cavalheiro tem sua maneira de conduzir – comunicar à dama o movimento seguinte. Mudar de um para outro é como estar conversando agora com alguém de São Paulo e, daqui dois minutos, alguém do Nordeste e, em seguida, um gaúcho. E depois um português e um angolano.

Se você já tem familiaridade com os diversos sotaques, não há problema algum. Se não, leva um tempo para se sentir mais à vontade e pronta para reagir de forma adequada. Seu tempo de resposta, enquanto isso, fica mais lento, porque processar a informação recebida demora mais, e nem sempre a decodificação é bem sucedida.

Traduzir é ser conduzido numa dança. Cada dama dança de um jeito diferente, com um estilo e trejeitos exclusivos – marca de sua personalidade. Quando você traduz, coloca a sua personalidade ali, mas, do mesmo modo que todas as decisões principais já foram tomadas na dança, também já foram quando o texto original foi feito.

O cavalheiro, e também o texto original/autor, leva, conduz a dama, a tradução/tradutor, para onde quer. Nem todos os cavalheiros são hábeis, nem todos os textos e autores são geniais. Mas todos estão ali nos guiando, orientando, mostrando o caminho que a tradução e o tradutor têm que seguir. Em algumas vezes é fácil; em outras, exige horas de treino, prática, repetição.

Aprender um passo novo pode ser tão frustrante quanto traduzir uma frase complicada. Um pé aqui, essa palavra ali, mas e a mão? Onde coloco o advérbio? A cabeça não fica melhor para o outro lado? Mas não é melhor trocar esse verbo por um substantivo? Será que cabe um floreio? E essa palavra, cabe no ppt?

Dizem que é impossível obedecer a dois mestres. Quem disse isso nunca dançou e nunca traduziu. Além de seguir o cavalheiro, a dama tem que obedecer a música. Se o casal não seguir a música, a beleza da dança se esvai. Na tradução, o segundo mestre é o cliente. Dama que não tem muita noção de ritmo acaba não sendo tirada para dançar de novo. E tradutor que não segue as orientações do cliente não é tirado para traduzir de novo.

No mundo ideal da dança, a música é bonita, o cavalheiro conduz bem, a dama entende, e a dança sai fluida, leve, suave, gostosa de se ver. Fazem as coisas mais absurdas, e parece tudo tão fácil! No mundo ideal da tradução, o cliente é sensato, o texto bem escrito mostra o caminho com clareza, objetividade, e a habilidade tradutória é suficiente para entender: a tradução sai fluida, leve, bonita, gostosa de se ler. Nem parece tradução!

Rubem Alves, meu autor preferido, dizia que o pensamento são as ideias dançando. Eu digo que a tradução são as palavras dançando.

Ainda vou escrever mais sobre isso. É um assunto que me fascina!