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No Twitter (@Kelli_Sem, @DaniloNogueira), nosso colega e amigo Ricardo Souza (@tradsouza) alegou não saber o que era “vício de frequência”. Tenho certeza de que sabe, só não conhece por esse nome — e deve combater com o mesmo denodo que nós.
Vício de frequência é o uso, na língua de chegada, de uma palavra ou construção correta mas que tem frequência menor do que na língua de partida. Dando um exemplo do inglês, a língua da qual a Kelli e eu traduzimos, traduzir todos os please por por favor, não é errado, mas é má praxe, por ser um vício de frequência enervante: Nós nem de longe usamos por favor a cada poucas linhas, como é hábito fazer com o please em certos textos em inglês.
Outro exemplo, e um dos primeiros pontos que abordamos em nossas Oficinas de Técnicas de Tradução, é o dos pronomes.
O verbo inglês é paupérrimo na etimologia: o que mais formas tem é be, que se limita a oito: be, am, is, are, was, were, being, been. Os que têm menos, como let, se limitam a três: let, lets, letting. A maioria, tem quatro: talk, talks, talked, talking. Por isso, o verbo inglês raramente dispensa o pronome explícito, como sujeito.
Por outro lado, um verbo português costuma passar de sessenta formas. O número teórico é 67, mas sempre há algumas repetições. Pela sua riqueza morfológica, o verbo português, em muitos casos, dispensa o pronome — e você deve se lembrar de seus professores de português reclamando das frases algo batatinha quando nasce, sempre com eu: Eu fiz isto, eu li aquilo, eu encontrei fulano… quando nosso estilo pede fiz isto, li aquilo, encontrei fulano… Do ponto de vista da gramática, usar sempre o pronome, está certo; mas, sob o prisma do estilo, é inaceitável — salvo se o original tiver alguma característica que justifique.
Os professores de inglês, por outro lado lutavam para nos ensinar que understood the lesson assim, sozinho, não se usa; tem que usar o pronome: I understood the lesson.
É importante tirar desse “conflito estilístico” uma lição na hora de traduzir: não é errado usar sempre um pronome explícito, mas constitui vício de frequência. Por outro lado, não usar nenhum é o pecado contrário, o vício de ausência, porque eu é uma palavra correta, lícita e usada em português — embora com menos frequência que em inglês.
Aí, surge um problema, porque não se pode estabelecer uma boa regra que nos diga quando usar e quando omitir o pronome da primeira pessoa. Cabe a nós, então, a tarefa de escolher. Uma tarefa árdua, entre outras coisas porque a escolha tem um tanto de subjetividade. Mas é a capacidade de escolher que nos distingue dos tradutores automáticos.
Curioso. Já falamos das novidades pra muita gente, e ainda não falamos aqui. Vamos corrigir o erro já.
A primeira novidade, os mais atentos já devem ter notado: o blog está passando por uma reformulação. Aos poucos, ele vai ficar mais prático, mais organizado, mais intuitivo. Nada de mudanças grandiosas, apenas alguns detalhes que melhorarem a usabilidade mesmo.
Essa mudança se deve, em boa parte, ao nosso afastamento da Aulavox. A partir de agora, nossos cursos e a Reunião na Sala 7 serão realizados em outra plataforma, mais interativa e dinâmica, que nos abre várias portas para trazer novidades aos cursos. Saindo da Aulavox, precisamos nos organizar aqui, para oferecer a vocês um lugar de fácil acesso com informações sobre os cursos, links para pagamento, e toda essa infraestrutura que os cursos exigem. Para ver como essas coisas estão, vá à página Cursos e Oficinas, no menu cinza bem no “alto” do blog. Espero que os “estrangeiros” fiquem felizes com a possibilidade de pagar pelo Paypal, agora.
Como já estávamos descontentes com a organização do blog, é juntar a fome e a vontade de comer. Para isso, vamos contar com a ajuda do Roney Belhassof, profissional extremamente paciente, que ensina cada passo que devemos dar. Pedimos paciência, porque as cabeças andam a mil, fervilhando de ideias, e dar conta de tudo leva tempo; mas a gente chega lá e tudo vai ficar redondinho. Um dia.
Para estrear a plataforma nova, nada melhor que uma Reunião na Sala 7, já tão tradicional (tem Sala 7 desde 2006!!!). Os encontros vão acontecer nos dias e horários de costume, quinta e sábado. Todo mundo pergunta como conseguir clientes novos, certo? Então, este mês, vamos falar sobre a etapa seguinte, que muitos esquecem: como manter os clientes antigos, sejam colegas tradutores, clientes diretos, agências, amigos, ou mesmo parentes. Cada um traz um problema diferente e deve ser tratado de uma certa maneira, mas qual?
De propósito, não vou colocar os links para a Sala 7 aqui. Vá até o menu, conheça as páginas dos cursos, inscreva-se em um deles. Vamos, nos próximos dias, falar de cada um. Em caso de dúvida, escreva para nós.
Tradução literária é a tradução de um texto literário, seja publicada em livro por uma editora, seja publicada em jornal, revista, papelzinho de bala ou nem seja publicada. Em outras palavras, o Erlkönig, de Goethe, em português, é uma tradução literária, mesmo que nasça e morra na tela de um computador. A tradução de um texto sobre eletroencefalografia não é uma tradução literária, mesmo que publicada por uma editora em forma de livro encadernado em capa dura e vendido aos montes para todos os estudantes de medicina do Brasil.
Tradução editorial é toda a tradução, literária ou não, publicada por uma editora. Por exemplo, a tradução de um livro sobre medicina publicada por uma editora é tradução editorial, mas não é tradução literária.
Muitas editoras publicam literatura, outras têm um amplo catálogo que combina literatura com outros tipos de texto, ainda outras jamais publicam literatura. Tudo o que se faz para essas editoras é tradução editorial, mas nem tudo será tradução literária.
Os tradutores literários (quer dizer, os que traduzem literatura), andam com uma mania muito chata de chamar tudo o que é tradução para editora de tradução literária, fazendo de conta que não percebem que as editoras não publicam exclusivamente traduções literárias, praxe que, além de errada, prejudica certos raciocínios.
Como profissionais da língua, acho que não nos cai mal pensar nessas minúcias.
A ver se consigo encerrar esta série hoje, para, amanhã, responder ao nosso colega e meu amigo Ricardo Souza, que parece querer uma explicação sobre o que seja “vício de frequência”.
A pergunta é: como é que fica? Um editor brasileiro acha que, agora, com o tal do acordo ortográfico (que Portugal ainda não implantou e resiste a implantar) vamos poder vender livros brasileiros dos dois lados do Atlântico, pressupondo que as divergências entre as duas vertentes sejam simplesmente ortográficas. Outro editor brasileiro pega uma tradução feita em Portugal por um tradutor de respeito e manda adaptar para o público brasileiro, sob o pressuposto de que os problemas vão além da ortografia.
Para mim, é óbvio que a editora que mandou adaptar a tradução portuguesa procurou reduzir custos. Não há nada de errado nisso. Entretanto, minha impressão é que uma boa adaptação vai custar ao menos o mesmo que uma boa tradução, porque dá um trabalho danado e é bem mais difícil do que parece.
Se custar menos, ou quem adaptou toma prejuizo, ou o serviço sai mal feito, como parece ter sido o caso de que estamos conversando.
Então, que fazer? Deixar que as duas vertentes divirjam cada vez mais, até o tempo em que, quem quiser ler o que se escreveu do lado oposto do Atlântico tenha de fazer curso? Uma pena. Adaptar? Custa caro e raramente funciona.
Unificar a ortografia? Vai ser complicado. Portugal não está com grande vontade de implantar este acordo ortográfico, o último não se implantou por vontade do Brasil. E mesmo que se implante, “betão pré-esforçado” e “concreto protendido” não seriam afetados.
Tentar usar a massa do povo brasileiro para atropelar Portugal, seguindo o conselho atribuído a Mark Twain, que teria dito “a língua inglesa é uma empresa da qual nós (os americanos) somos os maiores acionistas”? Acho que seria uma grade perda cultural para a língua como um todo.
Na minha opinião, se houvesse mais intercâmbio cultural, íamos nos acostumar com os modos portugueses e eles com os nossos. Quando meu filho tinha lá seus nove anos, descobriu uma série de livros infantis portugueses. Leu mais de 30 deles. Adorava. Achava divertida a escrita portuguesa, mas entendia e apreciava. Não precisava de dicionário, nem de acordo ortográfico, nem de adaptação. Ia lendo e as coisas iam fazendo sentido. Da mesma forma, qualquer engenheiro brasileiro vai entender “betão pré-esforçado”, embora provavelmente ache graça e vá continuar dizendo “concreto protendido”. Tenho em casa magníficas traduções portuguesas de livros sobre música clássica e me custou muito pouco descobrir que os trompetes são femininos na vertente europeia.
Em resumo, acho que a história do tal acordo ortográfico é um engodo e que, mais que de qualquer acordo ortográfico, precisamos de mais intercâmbio cultural entre os diversos países onde pão se diz “pão” e queijo se diz “queijo”, que é como Deus manda dizer.
O que não rola, mesmo, é esse troço de adaptação. Se rolasse, os portugueses tinham que começar por Camões, que disse
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
… usando o que hoje passa em Portugal por brasileirismo inaceitável, quando o “certo” em português metropolitano seria
A cantar espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Acho que até o português mais patriota vai concordar que, o original estava mais bonitinho.
Agora, chega. Até amanhã.
Três intrépidos, destemidos, solertes e corajosos colegas, Claudia Mello Belhassof, Érika Lessa e Marcelo Neves, decidiram criar o Tradcast, um podcast onde discutem tradução com outros tradutores profissionais. Aí, vem o Petê Rissati, outro intrépido, destemido, solerte e corajoso colega, e entrevista os entrevistadores aqui.
Não é coisa que se perca, nem o Tradcast, nem a entervista dos tradcastores.
Lá vem, então, a história da LeYa. Tomei conhecimento do caso da LeYa aqui. Se você não tem conta do Orkut, clique aqui e aqui, e vai saber tudo o que sei.
Antes que alguém me pergunte: não sou mais membro da comunidade e, de fato, ao sair, cometi orkuticídio, porque assim, cria eu, resistiria à tentação de voltar aos debates na comunidade, o que me parecia (e parece) muito pouco recomendável, porque minha participação estava causando muita confusão e, se eu voltasse (voltar) é certeza de confusão de volta. Então, estou e continuou fora. Tempos depois, recriei meu perfil, para acompanhar algumas comunidades que são abertas ao público, como a própria 50302. Tudo isso é mais que sabido, mas não custa deixar claro, antes que alguém ache que descobriu algum dos negros segreados da minha vida.
Voltando ao assunto, compartilho da indignação dos meus amigos da comunidade. É fato que não entendi por que o Carlos Angelo rotoulou o caso de perigoso para a tradução literária. Para mim, é perigoso para todos os tipos de tradução, salvo se ele estiver incorrendo no que considero um erro, o considerar “tradução literária” sinônimo de “tradução feita para editoras”. Eu traduzi muito para editoras, mas só uma vez na vida fiz tradução literária, que, aliás, não foi publicada. Mas, tirante isso, concordo com eles.
Em resumo: uma editora portuguesa, com o criativo nome de “Saída de Emergência” contratou Jorge Candeias, para traduzir um determinado livro para língua de gente, no que agiu muito bem. Tempos depois, cedeu a tradução para a LeYa, para publicação no Brasil. Sequer avisou o tradutor português, no que pode estar agindo dentro de seus direitos, mas foi de uma grosseria ímpar. O Jorge Candeias, que parece ser um homem cortês, pelo que escreve em seu blogue, descobriu o lance pelo Twitter. Santa pisada na bola, não? Pois é. Um cursinho de boas maneiras não lhes faria mal nehum.
Não sei se o contrato entre o tradutor e a editora permitia essa transação. Nem sei se havia contrato. Mas quem trabalha para editora precisa ficar experto e começar a pensar nessas coisas, que diabo! Ou será que o exemplo da Lenita Esteves não nos ensinou nada?
Mas, ao contrário do editor cenossão de que falei no primeiro artigo desta minissérie, a LeYa não acredita que as duas vertentes fossem separadas exclusivamente pela ortografia e mandou adaptar o texto à norma brasileira. Podia ter-se limitado a usar o novo corretor ortográfico do MSWord, que resolveria o problema em minutos, segundo entendem os que acham que nos separam exclusivamente diferenças ortográficas. Mas achou que era necessário adaptar e mandou adaptar.
Deixa espiritodeporcar uma pergunta: alguém adaptou Saramago ou Lobo Antunes para a norma brasileira? Lemos esses e outros com casca e tudo, não lemos? Então, porque não havemos de ler Jorge Candeias no original? Por que não se duvide que, ao ler um autor estrangeiro traduzido por Jorge Candeias, estamos lendo Jorge Candeias, não o autor do original.
Então, ainda que mal pergunte, por que razão podemos ler Sarmago como saiu do forno e temos de requentar Jorge Candeias? Ler Jorge Candeias causa “estranhamento” maior que os autores que escreveram originalmente em português? Ah, mas Jorge Candeias é também escritor! Muito bem, então, reformulo a pergunta: temos de adaptar seus escritos originais para leitura no Brasil? Não? Mas temos que adaptar as traduções?
Mas disso falo amanhã. Obrigado pela visita e volte sempre.
Deixa voltar à história do editor cenossão e mais a LeYa e o tal do Acordo Ortográfico.
Esse tal de acordo ortográfico é uma bobagem imensa e a maioria das críticas que se fazem a ele é uma bobagem ainda maior. Ortografia vai, ortografia vem, fica tudo do mesmo jeito. Já passei por quatro e sei que a dor da reforma logo passa. Tiraram o acento de “idéia” e parecia que vinha o mundo abaixo, porque ninguém ia mais saber escrever. Bobagem, quem tinha idéias passou a ter ideias; quem não tinha, vai continuar não tendo; e quem as tinha de jerico, vai continuar tendo. Ninguém sabia usar hífen, todos vão continuar não sabendo. Ponto final.
Digam o que disserem, o objetivo “profundo” do tal do acordo era vender dicionário, gramática e livrinhos do tipo “A nova ortografia”, intento no qual escritores e editores brasileiros e portugueses estavam unidos. A coisa encrespou quando os editores portugueses se deram conta de que os brasileiros queriam invadir a África e, provavelmente, até Portugal se possível. Há um bom mercado para livros na África. Não é nenhuma maravilhas, mas não é de desprezar. E a África está se abrasileirando. Outro dia tivemos, a Kelli e eu, em mãos uma lei moçambicana e, tirante as grafias, cheias daqueles pês e cês de que os portugueses parecem fazer questão cerrrada era muito mais arroz e feijão que bacalhau. Claro que os editores portugueses não estão gostando. Eu também não gostaria.
Por outro lado, não seria a implantação do acordo em todas as terras onde pão é pão e queijo é queijo (por contraste com aquelas onde pão é “bread”, por exemplo), que iria unificar as duas vertentes fundamentais da língua. Brasileiros e portugueses têm vocabulários e estilos distintos. Português diz “betão pré-esforçado” brasileiro diz “concreto protendido” e não há reforma ortográfica que vá unificar essa divergência. Nem há reforma ortográfica que vá sujeitar a caótica e anárquica colocação pronominal brasileira às peias da gramática metropolitana.
Acho que o resto fica para amanhã. Já falei demais, hoje. Mas isso não é novidade.
A palavra “cenossão” é um dos meus orgulhos. Inventei para uma brincadeira no Orkut, no dia 8 de fevereiro de 2008 e acabou não só pegando entre meus amigos, como também deu filhotes, como “cenossar” e “cenossismo”. Virou até nome de dois personagens fictícios, a Cenossilda e a Cenossélia, duas amáveis gêmeas cenossinhas.
A prova da criação está aqui, ou deveria estar, porque, quando cometi orkuticídio, todas as mensagens que postei foram apagadas, inclusive a da criação do termo. Por isso, o tópico está cheio de buracos. Diga-se de passagem que, se eu soubesse que as mensagens que eu tinha postado seriam apagadas, não teria cometido orkuticídio. Aparentemente, é uma regra implantada pouco antes da minha saída e que ainda era mal conhecida na época.
Verdade que a Comunidade do Orkut vai muito bem sem mim e eu sem ela, e muitos dos meus amigos estão lá e ainda recomendo a todos, principalmente os iniciantes. Mas lamento que a certidão de nascimento da minha grande inovação terminológica se tenha perdido.
Cabe, ainda, creio, explicar o que é um cenossão. É a pessoa tão sem noção, que não sabe nem escrever “sem noção”. Criação inspirada pelo “cerumano” que, dizem, foi usado em uma relação de vestibular.
Não é o principiante: muitos principiantes têm mais noção das coisas que certos veteranos. Não é o que não sabe: não saber não é pecado. Por exemplo, eu não sei nada de literatura finlandesa e isso não me torna um cenossão. Um ignorante, por certo, mas não um cenossão.
Cenossão é o sujeito que não tem noção de coisas que deveria conhecer bem, ou que se derrama em explicações sobre coisas que não conhece.
Por exemplo, o editor, de que outro dia falavam no Twitter, que disse “agora que mudaram as regras de gramática, podemos vender livros brasileiros em Portugal”. Se isso fosse dito por um motorista de táxi ou pela dona do mercadinho aqui perto, seria prova de ignorância mas ignorância não é pecado. Todos nós somos ignorantes de alguma coisa. Eu por exemplo, sou ignorante, entre outras coisas, de litaratura finlandesa, mas disso você já sabe.
O editor, por ser editor, entretanto, deveria saber que as regras da gramática não foram mudadas em nem há governo que as possa mudar: o que mudou foi a ortografia — e foi só aqui, porque os portugueses não mudaram nada (e, depois, venham me dizer que português é burro — burros fomos nós, que gastamos tempo e dinheiro para implantar uma reforma que não tem a mais remota utilidade prática). Além disso, sempre pudemos vender livros brasileiros em Portugal e os livros portugueses sempre foram encontrados nas livrarias brasileiras. Quer dizer, não mudou nada.
O que isso tem que ver com o caso LeYa? Vou contar amanhã. Por hoje é só. Obrigado pela visita.
Foi muito divertido.
Depois de uma longa caminhada pela Avenida Paulista, com pausa na Martins Fontes, almoçamos no Viena do Conjunto Nacional. Logo depois de uma rápida passada nos banheiros do Center 3, perguntei “E agora, o que você prefere, um passeio cultural pela cidade ou uma proposta de trabalho?” Ela respondeu “uma proposta de trabalho”. Então, saímos caminhando e conversando, descendo a Augusta e a Martins Fontes, embarafustando pelo centro novo e pelo centro velho, até tomarmos o metrô para o Terminal Tietê.
Não era nada do que ela pensava, do que ela esperava, talvez não fosse nem o que ela queria. Eram uns planos mirabolantes, que já deram certo e errado, que já mudaram mil vezes, que se transfiguraram em outros planos ainda mais mirabolantes. Muita gente ficou surpresa, alguns ficaram com inveja, outros ficaram com raiva. Por causa dessa conversa e da parceria que dela resultou, ela ganhou muitos amigos e inimigos e não poucos inimigos.
Brigamos, fizemos as pazes; meti bronca, levei bronca; ensinei, aprendi. Tivemos bons e maus momentos, mas o que aconteceu naquele dia foi um divisor de águas, na minha vida e, creio, na vida dela também.
Hoje faz dois anos que convidei a Kelli para minha parceira. Não me arrependo. Valeu, Kelli! Espero que tenha valido para você também.
O caso é real e recente, e foi acompanhado por quem está pendurado no Twitter. Sei muito pouco e não quero dizer mais do que sei ao certo. Estou mascarando os nomes, porque o objetivo aqui é analisar o problema — que é muito frequente em qualquer lugar do mundo — em termos gerais, não jogar pedra.
A Alfa Livrarias promove eventos culturais, nos quais, eventualmente, se apresentam palestrantes que não falam português. Para esses casos, a Alfa Livrarias conta com o apoio da Beta Idiomas, no que a própria Alfa Livrarias descreve como uma “parceria” e que inclui o uso das instalações da livraria para “clubes de conversação” onde, evidentemente, os cursos da escola são promovidos e atraem público para a livraria. É uma forma boa e sadia de promoção. Espero que esteja dando bons resultados para ambas as partes e para os participantes.
Recentemente, tiveram lá na Alfa Livrarias, o Gama Palestrante, que não falou em português. Mais uma vez, recorreram à Beta Idiomas e a interpretação ficou a cargo do Delta Professor, arvorado em intéprete.
Lamentavelmente, dessa vez, não funcionou. Não sei o que deu errado, sei que reclamaram e que a Alfa Livrarias publicou no Twitter um pedido de desculpas, falando da parceria com a Beta Idiomas e do seu sucesso, agregando que vai haver uma reunião entre Livraria e Escola, para analisar a situação. Tudo feito com muita clareza e cortesia. Ponto para a Alfa Livrarias. Deu errado, assumiu, vai procurar resolver. Mas não era para dar errado. O palestrante veio de longe, o evento deve ter custado uma bom dinheiro à Alfa Livrarias. E, lá pelas tantas, por uma falha de interpretação, o evento fica prejudicado. Uma pena!
A maioria dos que promovem eventos não se dá conta da importância da interpretação. O público pensa que vai ouvir o famoso Gama Palestrante, luminar de sua área — mas, na verdade, ouve Delta Intérprete. Se Delta der chabu, mela tudo. O mesmo acontece com a tradução: você leu Tolstoi? Se sabe russo, talvez tenha lido. Se não sabe, leu o tradutor da obra, que pode ter sido muito bom ou não. Mas vai pensar que leu Tolstoi e até vai sair por aí dizendo que leu! Essa é a importância dos tradutores e intépretes para a cultura, que editores e promotores de eventos tantas vezes ignoram, fingem ignorar ou desprezam.
A regra, muitas vezes, é contratar o intérprete ou tradutor que oferecer o preço “mais em conta”, às vezes em regime de permuta, quer dizer, contrata-se quem se dispuser a trabalhar a troco da promoção. Não sou intérprete, mas já me ofereceram mais de um serviço de tradução nessa base. “Estamos procurando quem faça traduções para nossa revista em regime de permuta”. Não há nada de ilegal ou imoral na permuta: em vez de dinheiro, paga-se com espaço publicitário ou alguma outra coisa de valor para o prestador de serviço. Aceita quem quer. O problema, nesses casos, é que a escolha fica reduzida a quem se conformar com o sistema, com resultados que talvez não compensem a economia.
Por que foram buscar o intérprete em uma escola de línguas? Toda escola de línguas que se preze sabe que nem todos os que falam bem uma língua estrangeira dão bons professores, que é preciso um talento e treinamento especiais para ministrar aulas — e a maioria faz questão de usar esse fato como argumento publicitário.
A maioria das escolas, entretanto, acha — ou faz de conta que acha — que, para ser tradutor ou intérprete, basta ser professor e jamais perde a chance de mandar um “bom professor” para servir de intérprete. Nada impede que uma só pessoa ensine, traduza, interprete e até faça delicosas empadinhas de camarão, mas proficiência em uma atividade não garante nem indica competência em outra.
A estratégia de procurar tradutores e intérpretes em escolas era válida quando não havia ainda um corpo de profissionais na área — eu próprio comecei assim, há quarenta anos — mas hoje não encontra justificativa alguma, salvo se a escola, como algumas atualmente, tiver também investido em cursos de tradução e interpretação. O problema é ainda mais grave na interpretação do que na tradução, porque o ambiente é mais tenso e porque não há como “revisar o texto”. Essas improvisações podem dar certo e podem não dar.
O curioso é que os promotores de eventos raramente lembram disso. E capricham na escolha do local, do bufê, das recepcionistas (que hoje são profissionais bem treinadas, não simples “mocinhas simpáticas” como eram antigamente) — mas na hora da interpretação, acaba o dinheiro e querem fazer economia, procurando um que “faça mais em conta” ou “aceite permuta”
Depois, reclamam da má qualidade da interpretação. Nunca se deve reclamar da qualidade da interpretação: reclame-se de quem escolheu o intérprete.
O que dói mais é o constrangimento de Delta. Delta deve ser professor (ou professora) capaz. Se não fosse, não seria indicado para a interpretação. Sabe “indicamos uma das nossas melhores professoras, Delta, com X anos de experiência…” Excelente na sala de aula, mas não se saiu bem na interpretação, o que comprova tudo o que foi dito acima. A despeito da cortesia da Alfa Livrarias, que não citou nomes, a história corre, e a reputação de Delta como professora pode se ver injustamente maculada. Mas não deveria, não é desdouro para um grande professor se enrolar todo em uma interpretação. Como não é desdouro para um intérprete / tradutor não conseguir ministrar uma uma que preste. Ou não saber fazer empadinhas de camarão.
Antes que me esqueça, a Alfa Livrarias fica em uma cidade de grande porte, onde há intépretes profissionais. Se fosse em Santa Perdida do Benlalonge, seria de desculpar.
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