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Esclarecimentos

O Danilo e eu, muito mais ele do que eu, sempre postamos aqui os cursos de tradução, interpretação e legendagem que chegam ao nosso conhecimento. No entanto, nós ainda não temos o nosso (que só poderia ser de tradução, visto que nenhum de nós interpreta ou legenda) e também não participamos de nenhum. Sendo assim, não, não podemos segurar vagas, dar jeitinhos, ‘fazer alguma coisa’. Nossa parte fazemos anunciando. Maiores informações e pedidos devem ser encaminhados aos organizadores dos cursos, sejam nossas amigas da legendagem, seja o Guilherme, a PUC ou qualquer outra pessoa/entidade.

Cursos de formação de tradutores

Dois futuros colegas me escreveram esta semana, usando o formulário para contato, pedindo recomendações sobre cursos de formação de tradutores. É um assunto, para mim, complicado, para não dizer espinhoso, mas vou tentar dar uma resposta decente durante o curso da semana entrante.

Na verdade, em certos momentos me faltou assunto para o blogue, mas no momento atual temos assuntos até em excesso, além do que janeiro e fevereiro são meses cheios para quem faz tradução financeira e estou inundado de serviço. A ver o que se consegue fazer. Peço a todos um pouco de paciência.

Edição extra: dublagem à carioca e à paulista

Uhm, o Fábio Said publica aqui uma nota interessante sobre dublagem. Não sou fã nem conhecedor de cinema nem de t TV e, portanto, não dou opinião. Lá pelas tantas, entretanto, o Fábio fala na diferença entre proveniente do Rio e de São Paulo e acho que o assunto merece um tanto de atenção. Se você é do tipo que assiste a filmes dublados, vai lá dar uma olhada e me diz o que acha. Não vale ficar catucando a velha e idiota rivalidade entre Rio e SP, mas observações objetivas são bem-vindas.

Se você for do ramo, talvez possa, inclusive, dizer qual é a origem dessas pretensas diferenças.

Se não quiser comentar, ao menos vá lá e leia o artigo, que é interessante.

O que é que a Kelli andou fazendo?!

Acho que tanto a Kelli como eu ainda temos muito que aprender com este tal de WordPress que estamos usando agora. O Blogspot sempre “assinava” os artigos por nós, mas o WordPress não assina, ou, ao menos, não descobrimos ainda como.  A coisa fica mais divertida porque um dos passatempos da Kelli é imitar meu estilo, o que ela faz bem e, nas revisões, é ótimo, porque quando ela mexe no texto, corrigindo alguma besteira que eu fiz ou melhorando alguma coisa que, sem estar realmente errada, podia ser melhorada, não fica o que se chama em inglês um purple patch, quer dizer, um remendo muito visível. É o que eu chamo serzido invisível da dona Kelli.

Mas o fato é que outro dia ela postou um artigo aqui, que não foi assinado e que eu próprio comecei a me perguntar quando é que eu tinha escrito aquilo. Parecia coisa minha, eu já devo ter dito coisa semelhante, mas não me lembrava de ter escrito. Até que topei com uma palavra que eu não gosto de usar e, quando sou forçado a usar, uso sempre com um caveat e a Kelli usou, digamos, a seco. Aí, me dei conta de que era coisa dela.

Você é capaz de identificar o artigo da Kelli e dizer qual a palavra?

P.S.

Só vou aprovar os comentários a partir de segunda-feira, para ficar mais divertido.

Traduzir PHP direto do navegador

Pergunta o Bruno, usando o formulário de contacto aí acima:

Estou fazendo tradução em formulários php no próprio browser (vem um campo escrito e outro em branco para inserir a tradução). Pra usar ferramentas de tradução eu tenho que copiar e colar toda hora. Acho um retrocesso isso. Queria saber se há alguma maneira de usar um Trados, Wordfast ou outro soft integrado ao firefox ou qualquer outro browser pra usar minhas memórias nos formulários no próprio browser, se possivel alimentar as memórias com o conteúdo dos campos do formulário. Vcs conhecem alguma coisa? Nem que seja um addonzinho merreca do firefox? :P

O correto é pegar o arquivo php com o cliente e traduzir usando um software como TagEditor, DVX ou MemoQ, entre outros. A mesma coisa com html e quejandos. Esse sistema que você está usando, além de ser “um retrocesso” como você mesmo diz, dependendo da situação, pode oferecer o risco de algo importante escapar. O mesmo acontece com html: cliente diz “é fácil, é só copiar da Internet, colar em um arquivo em branco e traduzir”. Lindo, lindo, lindo – quando dá certo. Mas pode não dar e, aí, a gente pasta.

É até capaz de haver algum add-on do Firerox que resolva isso, mas é mera gambiarra. É até capaz de algum leitor conhecer essa gambiarra e dar o serviço. Mas eu tenho pavor dessas coisas.

Colega na França com dúvida sobre tributação

A Isabelle usou o formulário “escreva para nós”, para o qual há um link aí no alto da página, para fazer esta pergunta:

Tenho uma pergunta sobre a Nota fiscal.

No meu caso, sou freelancer na França e tive que fazer uma tradução para alguém que está no Brasil. O que devo escrever na minha fatura ou como devo fazer para que ela seja válida no Brasil e que não haja sonegação fiscal? (Pago meus impostos na França e deste lado, já sei o que escrever na fatura para que ela seja válida aqui)

Agradeço pela atenção.

Cordialmente,

Isabelle Branco

Se você é contribuinte na França e sua fatura tem os dados que a lei francesa pede, acaba aí o seu compromisso. Você não deve nada no Brasil nem pode emitir nota fiscal, salvo se tiver uma empresa constituída aqui — o que não parece ser o seu caso.

Se você prestou serviço a uma empresa brasileira, cabe à tomadora do seu serviço, a sua cliente, processar a sua fatura de acordo com a lei brasileira e você não tem controle algum sobre o que eles fizerem. Veja que o interesse deles é escriturar direitinho a operação, porque se eles não lançarem sua fatura, o que eles pagarem a você é considerado lucro, salvo se eles estiverem no regime de lucro presumido.

Entretanto, pode suceder que eles prefiram não contabilizar a sua nota, porque a encrenca de pagar um tradutor no exterior é grande. Nesse caso, você seria paga pelo caixa dois, que é ilegal. Entretanto, seu pagamento não vai gerar sonegação nem de um lado nem de outro: o que gera sonegação é o recebimento feito pela empresa sem contabilização.

O único problema que eu posso antever é o da substituição tributária do ISS. Explico: se você estivesse no Brasil, como tradutora, teria de recolher ISS. Como a alíquota do ISS varia de município para município, muitas empresas têm sedes sociais falsas em municípios de baixa tributação, embora operem nas capitais, onde a tributação é mais alta. Para acabar com essa evasão, em muitas cidades grandes, ou você prova que, de verdade, não mora lá e tem um escritório de verdade em outra cidade, ou a prefeitura obriga a tomadora do serviço a reter o ISS de você e recolher aos cofres públicos. Esse é um ponto que deveria ter sido discutido antecipadamente com a tomadora, porque o ISS de uma capital pode comer até 5% dos seus honorários.

A prefeitura municipal de São Paulo exigiu de mim que oferecesse prova de que eu realmente trabalho fora da capital, para isentar meus clientes do dever de reter ISS. Mandei para eles uma conta de luz junto com fotos da minha casa e mais não me lembro o que e agora estou lá cadastrado.

Empresas prestadoras de serviço que têm gigantes sedes em São Paulo e “sede social” numa saleta numa cidadezinha qualquer que ninguém sabe onde é, estão coçando a cabeça.

Espero ter resolvido a sua dúvida.

Edição extra! Alfredo Monte × Guilherme Braga

Alfredo Monte, no seu blogue, fez uma crítica genérica ao trabalho de Guilherme da Silva Braga. O Guilherme escreveu solicitando críticas mais específicas. Alfredo Monte não se fez de rogado e apresentou uma análise mais pormenorizada daquilo com que não concordava. Guilherme foi e respondeu, Alfredo publicou a resposta. Está muito bonita,  a discussão entre os dois. Não importa se você concorda com um ou com o outro: vá lá e leia. É uma aula.

Como tradutor, fico grato a ambos pela polêmica aberta e à Val Ivonica que tuitou a notícia e à Carol Alfaro que retuitou. Na verdade, vi a informação da Carol antes.

Será que ainda estou evoluindo como tradutor?

Quem faz tradução literária costuma dizer que tradução técnica tem muita repetição. É uma grande verdade, mas não é uma verdade assim tão grande como pensam os tradutores literários, se me faço claro.

Textos técnicos costumam usar um vocabulário mais restrito que os literários — mesmo onde, como no Brasil, os redatores gostam de dar largas à sua veia poética e usar muito mais sinônimos do que seria permitido em inglês, por exemplo. Além disso, é comum, até dentro de um mesmo texto, haver repetições e quase repetições aos montes. Primeiro se fala do Modelo A, depois se fala do Modelo B, que é parecido, porém tem mais isto e mais aquilo, em seguida passa-se ao Modelo C, que é ainda mais cheio de apetrechos e acessórios — mas o texto fundamental do Modelo A acaba se repetindo, em todo ou em parte, em todos os outros modelos.

Essa característica torna mais valiosas as ferramentas de memória de tradução (mas esse negócio de tradutor literário dizer que para eles não serve é desculpa de quem tem medo de inovação). Você traduz o Modelo A e, quando chega ao Modelo B, a ferramenta muito provavelmente vai mostrar o que você traduziu para o Modelo A, apontando onde o texto precisa ser alterado. Aumenta a eficiência, mas também a qualidade, porque, numa tradução técnica, espera-se a repetição de palavras onde existe repetição de sentido.

Mas o texto original é uma coisa, a tradução é outra, um pequeno problema teórico de que às vezes nos esquecemos.

Estes dias, estou traduzindo, pela nãosseiquantésima vez, o relatório anual de uma empresa que atendo há muitos anos. Há trechos totalmente novos, que se referem a acontecimentos do ano passado, mas há, também, trechos sobre a organização da empresa, assuntos que vêm se repetindo há anos, e nos quais não se mexe há anos. Porém, várias vezes, eu rejeito o que fiz o ano passado, em favor de uma nova redação, para exatamente o mesmo texto. Não que esteja errado: simplesmente achei — ou acho que achei — uma solução melhor.

Sinal de que ainda estou evoluindo como tradutor? Provavelmente. Nunca se sabe quando a evolução dá lugar à deterioração, que nos leva a substituir o razoavelmente bom pelo inteiramente sem sentido.

O fato é, entretanto, que mesmo os famosos “100% matches” merecem uma boa olhada.

Por hoje é só. Obrigado pela visita e volte amanhã. Mais um ou dois dias, retomo a conversa da “Casa das Rosas”, que é importantíssima e foi interrompida pelo hiato sofrido pelo blogue e pela necessidade de eu me familiarizar com esta tralha toda.

Convenções ortográficas e tipográficas

Cada língua tem suas convenções ortográficas e tipográficas — mas muitos de nós nos esforçamos tanto para aprender as convenções de nossa segunda língua que acabamos aplicando as mesmas convenções ao português. Então, os tradutores de inglês escrevem português com convenções inglesas e os tradutores de francês escrevem português respeitando as francesas. A troca de mensagens pode ficar muito gozada:

— Eu gosto muito de ler em Alemão, principalmente aos Domingos, quando estou de folga. Em Agosto, li dois livros em Alemão.

— Você gosta de ler em alemão ? Que coisa estranha ! Eu estudei alemão na escola e até consigo ler. Mas não vou estragar meu domingo com essas coisas. Quando não estou lendo francês nem português, prefiro ler em espanhol. Em agosto, li ” Cien años de soledad “.  Imagine que nunca tinha lido ! Essa história de ler alemão não é comigo.

Sempre é bom lembrar que nomes de línguas, dias da semana e meses vão em minúscula em português e que não se usa espaço antes de pontuação de tipo algum e também que as aspas vão grudadinhas no texto aspado.

Quer dizer, português é português, inglês é inglês e francês é francês! “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” e, por hoje, é só!

Dicionários, de novo

É consenso entre a grande maioria dos tradutores que não existe um dicionário bilíngue português<>inglês realmente BOM e que eles podem até ajudar numa tradução/versão, mas os que realmente nos salvam são os monolíngues mesmo. Eu tinha uma certa tendência a concordar com isso, mas acho que tinha mais a ver com pecorismo – não adianta procurar no Houaiss, não tem – do que com qualquer outra coisa.

Um belo dia, no entanto, fazendo uma versão, percebi que acabo consultando o Houaiss muito mais do que qualquer dicionário bilíngüe. Sim, você leu certo e eu escrevi certo: Houaiss para versão. Claro que lá não tem nada em inglês que me ajude, mas talvez pelo meu jeito de estruturar informações, em geral, ver as definições e escolher a que se aplica ao meu contexto acaba me ajudando a ter a ideia certa (ou pelo menos aproximada). Como o Danilo mesmo sempre diz, se o tradutor não entender o texto de partida, ninguém vai entender o texto de chegada.

Muitas vezes são palavras simples, cotidianas, que por algum motivo não acionam o gatilho do inglês e, de repente, no meio da definição, a luz aparece. É quase uma epifania a cada palavra pesquisada, sem contar que meu conhecimento de português cresce – você sabia que ‘acompanhar’ tem 16 acepções no Houaiss? Uma palavrinha tão simples, né…

Claro que a grande vantagem disso acaba sendo comparar definições em dicionários de português e de inglês. Se a definição bate, o único cuidado que sobra é com relação ao uso – se os dois termos tiverem equivalência de uso, sendo comuns/raros/gírias/coloquiais/formais, então o problema está resolvido. Se não… bora pesquisar mais um pouquinho.