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Ler a história de terror do Danilo abaixo é pré-requisito para a leitura deste post. Foi o gancho que me faltava.
Estive em Buenos Aires em início de janeiro para a 35ª Assembléia da AIIC, a Associação Internacional de Intérpretes de Conferência. A assembléia, realizada uma vez a cada três anos, veio pela primeira vez para a América Latina. Foi uma interessantíssima Torre de Babel formada por quase 300 intérpretes do mundo todo.
Entre eles estava uma dupla alemã: Angelika Eberhard e Angela Drösser. Germanicamente, com ajuda de um grupo de colegas idem, desenvolveram um estudo chamado “The Profitability Gap”.
A mulher que calculava que vos fala saiu de lá com a cabeça quente porque o âmago da questão era: “afinal de contas (literalmente) de onde tiramos nossos preços e quanto devemos/podemos cobrar?”. Isso sempre me intrigou, pois me parece que é mero feeling acharmos que USD 0,32/palavra é excelente e USD 0,03 é péssimo. O mesmo se aplica à interpretação: a tabela do Sintra é decente, muito acima disso é luxo, abaixo é mercado cinza. Muitas vezes pensei em desenvolver um sistema para entender isso e saber exatamente como formar preço, algo vital no mundo dos negócios.
Pois foi bem isso que as colegas alemãs fizeram, tudo a partir também de um mero feeling de que trabalhavam mais e ganhavam menos. Primeiro, levantaram a inflação desde 2000. Hipótese prevista e confirmada: as tarifas do mercado de tradução/interpretação não tinham acompanhado o ritmo. Segundo, para serem realistas, pesquisaram quanto sindicatos sérios e sensatos (no caso delas, da indústria metalúrgica) conquistaram no mesmo período. Estabeleceram como meta para o futuro não dormir mais no ponto para só acordar quando Inês está agonizante.
De outro lado, fizeram um levantamento rigoroso da vida profissional para descobrir quanto tempo gastam tanto nas tarefas que podem ser cobradas do cliente quanto nas que não podem. Exemplos: o tempo que um intérprete dedica a estudar um tema antes de uma conferência não só pode como deve ser coberto pela tarifa cobrada para traduzir o evento; já a grana que elas gastaram para estar em Buenos Aires (e só estavam lá em virtude da profissão) não pode ser debitada a nenhum cliente específico.
Usaram um software chamado Baralga (há outros gratuitos para download) para registrar o tempo dedicado a todas as atividades profissionais durante seis meses e depois extrapolaram para um ano. Incluíram tudo, não só horas na cabine, mas também transporte, estudo prévio, emails, conversas telefônicas, cálculo de orçamentos, cobrança, contabilidade, reuniões, marketing, leituras, cursos, contatos com colegas, redes sociais, e tudo mais que vocês lembrarem que fazem PORQUE são tradutores e/ou intérpretes. Aliás, os que tinham outra atividade como ensino, por exemplo, incluíram também.
Por último, cada participante do estudo computou quanto precisa para viver em três níveis: 1) “zero savings”, ou seja, o mínimo para subsistência; 2) para ter uma vida confortável; 3) para poupar para o futuro. Somaram aí todas as despesas de casa, escritório, educação, saúde, seguro, filhos, férias etc e tal. Afinal, é para isso que um cidadão normal trabalha, não? Para “ganhar a vida”, no mais amplo sentido da expressão. E o trabalho tem que ser sustentável pois, como bem lembrou o Robert no comentário ao post anterior do Danilo, não dá para imaginar alguém traduzindo 38 laudas todo santo dia durante 365 dias sem descanso. OK, vai que aguenta um ano! Mas 2 … 10 … 20 … 35 … nesse ritmo? Duvido! Não é sustentável!
A conclusão final foi descobrir quanto precisam cobrar para atingir seus objetivo$ de vida. Não chegaram a um valor único, mas à plena consciência do mínimo abaixo do qual a resposta é um sonoro “não”. Dizem que ficaram mais seguras na negociação com o cliente e, se perdem um trabalho, curtem a folga cientes de que não ia ser lucrativo. Pedidos de desconto deixaram de ser atendidos ou negados na base do “porque sim” ou “porque não”. Um eventual sim resulta, agora, da clareza sobre o cliente exigir menos tempo e, portanto, remunerar melhor mesmo pagando um valor unitário menor.
Complicado? Sim. Essencial? Sim. Eu já pus isso em prática? Não. Pretendo por? Sim. Quando? Não sei, mas se eu, nós, nunca fizermos isso, vamos continuar sempre no escuro nesse departamento.
P.S. Assim como em qualquer outro negócio, formação de preço é questão interna. Via de regra, nada disso é discutido com cliente.
Nosso colega Paulo Bié, de Brasília, conta uma história de terror.
O Ministério da Educação precisava de umas tantas traduções e promoveu um leilão às avessas, oficialmente denominado “Pregão 12012”. O lote é de 14.000 laudas de 1000 caracteres sem espaço.
O vencedor se propôs a fazer o serviço por R$ 87.000,00, ou seja, R$ 6,12 por lauda de mil caracteres sem espaço. Daí, vamos tirar uns 18% de impostos. Ficam R$ 5,72. Presumindo que o vencedor não consiga fazer 14.000 laudas de 1000 caracteres em um ano, há de ter que compartilhar parte dos R$ 5,72 com alguém.
Trocado em miúdos, o valor bruto, quer dizer, sem descontar impostos, é coisa de R$ 0,03 por palavra, entendendo-se que “1000 caracteres sem espaços” sejam o equivalente a coisa de 180 palavras.
O mais assustador é que a maioria dos licitantes pediu muito pouco a mais. Ao todo, três pediram menos de R$ 100.000.
Paulo Bié foi o último colocado, o que é, no caso, uma grande honra.
Corrijam-me se minha matemática estiver errada.
Pergunta a Natália:
No início de dezembro do ano passado, fechei contrato de prestação de serviço com uma agência de tradução através de um “processo seletivo para estudantes”. Tradução, revisão e dupla-versão. Não vi desvantagem alguma porque no momento estou mais interessada na experiência do que retorno financeiro. Enviei documentação por correio, recebi por e-mail, tudo certo. O problema é que ficou só nisso. Até hoje me pergunto “cadê o serviço?”. Pretendo procurar mais serviço por aí, dependendo da situação, mas mesmo assim fiquei com uma pulga atrás da orelha. É normal aprontarem dessas com iniciantes?
Obrigada, desde já.
Natália, a maioria dos tradutores imagina que as agências procuram tradutores quando tem serviço para eles. Mas não é verdade, nem pode ser. Imagine se fosse. Liga o cliente e diz “tenho um manual para traduzir” e a agência sai, doida, botando anúncio, testando e cadastrando tradutores! Não pode ser. A agência tem de estar pronta para atender o cliente dela no menor prazo possível.
Então, toda agência procura manter uma boa reserva de tradutores, para “as eventualidades”. A situação se agrava porque todo tradutor deve cadastrar-se em várias agências. Isso significa que, quando a agência precisa dele, ele pode estar ocupado com outro serviço.
Então, cada agência tem seus tradutores divididos em vários times. Tem o primeiro time, os mais experientes e confiáveis, que recebem mais serviço e ganham mais. Quando chega um serviço e todos os do primeiro time estão ocupados, seja com a própria agência seja com outra, procuram alguém do segundo time e assim por diante.
Agora, me diga: se você tivesse uma agência, agiria diferente? Ia deixar para procurar tradutor quando o cliente estivesse te cutucando? Então, Natália, eles não “aprontaram” com você. Simplesmente têm de estar prontos. Você, pelo seu lado, tem também que estar pronta e procurar serviço em várias agências, editoras e o que mais seja.
De certo modo, Natália, foi até bom. Pior seria se eles tivessem te dado um monte de serviço logo de cara e você tivesse ficado só com eles como clientes. Nesse caso, quando acabasse o serviço, você ficaria a ver navios. Já vi isso acontecer e é muito triste.
Agora, se eles disseram que era “para início imediato”, aí, erraram, porque mentiram, porque nunca é, porque não pode ser.
A tradução recebida da revisão parece um mar vermelho, de tanta correção, e o tradutor fica vermelho de vergonha, principalmente se for principiante, e se pergunta “será que eu sirvo para tradutor?” Também é possível que fique vermelho, de raiva, principalmente se for veterano e se pergunta “quem esse revisorzinho pensa que é?”
Deixa dizer que já recebi vários mares vermelhos. Alguns com bom motivo. Mas vamos deixar esse assunto para mais adiante. Vamos começar perguntando por que a tradução voltou um mar vermelho.
Os motivos se dividem em duas categorias:
A tradução pode estar de fato ruim. Se estiver ruim, três coisas podem ter acontecido: talvez você esteja na profissão errada, como lamentou uma colega outro dia no Facebook; talvez você esteja na profissão correta, mas ainda não tenha a experiência suficiente para fazer um bom serviço; talvez estivesse em um mau dia e, embora competente e experiente, tenha feito um mau serviço (recentemente, recebi um puxão de orelhas por um serviço mal feito, porque feito em um mau dia).
A tradução pode estar boa. Se estiver boa, quatro coisas podem ter acontecido: talvez o revisor tenha uma teoria da tradução diferente da sua e ache que você, simplesmente, ouviu o galo cantar, sem saber onde; talvez o revisor seja do tipo compulsivo-subjetivista, que quer transformar a sua tradução na tradução dele, trocando o que está perfeitamente bom pelo que ele acha mais bonito; talvez o revisor seja do tipo compulsivo-aparecido e mude tudo, inclusive trocando o que está melhor pelo que está pior, só para mostrar serviço; finalmente, talvez o revisor seja uma besta cúbica e troque o certo pelo errado, como aconteceu com a infeliz que craseou todos os “a” e “as” de um longo texto meu (à empresa, ao inaugurar à nova filial…).
Mais do que a análise acima, entretanto, o que importa é o que fazer numa hora dessas.
Primeiro, acalme-se. O mundo, aparentemente, ao menos, não acabou.
Depois, leia cuidadosamente as alterações. Pode muito bem ser que o revisor esteja certo e uma boa revisão é o segundo melhor curso de tradução que existe. O melhor seria uma revisão comentada, do tipo “troquei X por Y porque…”, mas não se pode esperar nada disso, porque revisor não é professor. Mas quem não tem cão caça com gato e, na maioria das vezes, há o que aprender com seu revisor, mesmo que não seja dos melhores. Precisa um pouco de humildade, mas é bom.
Seja honesto. A maioria de nós se irrita profundamente com correções (a Kelli, por exemplo) e alguns têm a tendência a partir para o contra-ataque (que, felizmente, ela não tem). Não é por aí. Procure aprender, em vez de tentar se defender. E, se tiver realmente escorregado na maionese, pisado no tomate e caído sentado em cima de um monte de cocô de burro, reconheça, como eu reconheci quando levei o puxão de orelhas de que falei acima.
Às vezes, as alterações são muito subjetivas. Talvez, um simples caso de casca de feridismo. Mas pode ser uma diferença de postura. Como diz Juliane House iniciando o primeiro capítulo de seu “Translation Quality Assessment”, “Avaliar a qualidade de uma tradução pressupõe uma teoria da tradução” (tradução minha) – o que significa que o revisor simplesmente esposa uma teoria da tradução diferente da que você empregou em seu trabalho. Complicado isso, porque nem todos nós sabemos que teoria estamos aplicando e o cliente, especialmente se for uma agência estrangeira, também não sabe nem quer saber. O revisor revisou, está revisado. Então, não adianta brigar. Talvez adiante adotar as ideias do revisor para aquele cliente – mas corre-se sempre o perigo de que na vez seguinte o revisor seja outro, com ideias diferentes. Quer dizer, nem sempre há uma solução.
Por fim, existem as revisões evidentemente loucas, como as da mulher (sei que era mulher) que achava que todos os “a” e “as” solitários mereciam um acento grave. Dessa, eu reclamei e ganhei a parada, porque ela perdeu o emprego.
Porque para tudo há um limite.
P.S.: para quem estranhar o “um mau dia”, lembro que a maioria dos textos que caem nas minhas garras chegam e partem no mesmo dia. Se eu estiver num “triplo negativo”, como se dizia no tempo em que a história do biorritmo estava na moda, babau.
Nasci em 29 de dezembro de 1942. Entrei na escola em fevereiro de 1950. Naquela época, entrava-se na escola aos seis ou sete anos. Para surpresa de Dona Maria Auxiliadora Rocha, minha professora de primeiro ano, sabia ler e me recusei a usar a cartilha. Tinha aprendido a ler em casa, com auxílio de minha mãe. Lia o jornal “A Gazeta” e fuçava nos livros de meu pai.
Meus pais não eram pessoas de grande cultura, mas liam e escreviam com prazer e competência. Tenho, até hoje, o diário escrito por meu pai, como registro do grande evento de sua vida, uma viagem de trem a Montevidéu, seguida por uma travessia até Buenos Aires. Escrevia bem ele, embora numa ortografia híbrida, criada por ele próprio.
Deixa explicar melhor: meus pais tinham estudado pela “ortografia antiga”, em que se escrevia elle gosta de theatro. Essa ortografia era às vezes chamada “usual”. Teoricamente, era etimológica, na prática era só confusa. Os portugueses tinham trocado esse sistema absurdo por um bem mais sensato em 1911, para desespero de Fernando Pessoa, para quem escrever cisne em vez de cysne roubava ao ilustre palmípede toda sua elegância e dignidade.
Entretanto o Brasil não tinha acompanhado a mudança. Então, enquanto os portugueses orgulhosamente já usavam fósforos havia anos, os brasileiros, com igual orgulho, continuavam a acender seus cigarros com phosphoros.
Realmente, não me fez grande diferença. Meus pais me ensinaram que na “ortografia moderna” se escrevia farmácia, ao passo que na antiga se escrevia pharmacia e eu saltitava alegremente da Gazeta, escrita na “ortografia moderna” para um livro lindo intitulado “Noções de Cousas”, usado por meu pai na escola secundária, onde aprendi coisas magníficas sobre química, que, no livro, aparecia como chimica.
Mas estou simplificando, porque a tal da ortografia antiga era meio bagunçada e havia inúmeras variantes e modalidades, embora nada que a cabeça de um menino de sete anos não pudesse abarcar.
Em 1943, a modernidade ortográfica chegou ao Brasil, com o novo vocabulário ortográfico, que mandava escrever êle gosta de teatro. Sim, porque, ao mesmo tempo em que se achava dispensável o th de theatro e os dois eles de ele, concluiu-se que era indispensável continuar distinguindo o pronome êle do nome da letra ele, o que se fazia com um chapeuzinho no e. Na ortografia antiga, era elle para o pronome, ele para a letra.
E não parava por aí. Escrevia-se simultâneamente, por terror de que, sem o elegante adorno, alguém fosse pronunciar simultaneamente de alguma forma que não fosse simultaneamente ou para distinguir sei lá do quê. Ou seja, parecia indispensável indicar o acento secundário nos advérbios em mente. Quando o adjetivo levava agudo, o acento virava grave próprio, pròpriamente. Quando levava circunflexo, como simultâneo, ficava com circunflexo mesmo, por falta de melhor opção.
Mas o pior era mesmo a regra do acento diferencial das paroxítonas: êle, acentuada por causa de ele, vá lá que seja. Mas nêle acentuado por causa de nele? O que demônio é um nele? Está no Houaiss: “Regionalismo: Índia. Diacronismo: antigo. arroz com casca.” O risco de alguém confundir a contração da preposição em e o artigo ele com um termo que não se usa mais e que, quando se usava, só se usava na Índia, é meio remoto. Mas a regra criou uma criatura especial: o “casca de ferida das homógrafas”, o emplastro que conhecia todos os casos, vivia procurando casos novos e que ferozmente metia a caneta vermelha no infeliz que escrevesse toda manhã, por que toda, sem acento, era uma ave, e o certo era tôda manhã. Havia até livros com listas dessas palavras — e quem os comprasse.
A ortografia de 1943, junto com a “usual”, foram minhas duas primeiras ortografias. Nem meu pai nem minha mãe, entretanto, assimilaram de todo a “nova ortografia” e escreviam num sistema próprio, que combinava elementos de ambos e, talvez, fosse mais lógico do que qualquer um deles. Mesmo assim, lia-se (e ainda se lê) com prazer o que escreviam.
Essa ortografia, entretanto, não se usava em Portugal. Lá vigorava outra, algo diferente, que nunca entrou em vigor no Brasil. Foi essa, entretanto, minha terceira ortografia, porque sempre comprei livros impressos em Portugal e porque a Biblioteca Municipal do Tatuapé, da qual eu tomava livros emprestados às toneladas, também tinha muita coisa publicada em Portugal. Houve mais de uma tentativa de unificar as ortografias, mas não deu em nada. De um modo ou de outra, eu mal notava as diferenças. Escrevia objeto, mas, quando encontrava objeto em um livro editado em Portugal, lia e entendia sem problema.
Essa ortografia exclusivamente portuguesa foi a terceira que conheci.
Em 1971, veio outra reforma ortográfica, que eu vivi intensamente. Tiraram o raio do acento diferencial de êle e de todas as outras paroxítonas, salvo pôde. Foi um Deus nos acuda. Uma grita única! Gente que dizia que o fim do mundo estava próximo, que a cultura nacional, já meio fraca das pernas, ia soçobrar de uma vez por todas.
Imagine! Como íamos agora fazer para distinguir o nome da letra do pronome? Como íamos saber se em ele toma café estávamos nos referindo a um macho qualquer retromencionado ou à letra ele? Íamos agora pronunciar o pronome com é aberto? Não faltava quem lesse, exageradamente, os ele pronome com é aberto, com acompanhamento de um risinho sarcástico: éle foi tomar café. Porque, afinal de contas, sem acento lia-se aberto, não fechado, claro.
Conheci um revisor que recolocou todos os acentos em um texto e foi demitido por isso. Mas ele se negava a curvar-se perante aqueles horrores de escrever êle como se fosse ele. Saiu de cabeça erguida, não tinha cedido.
Essa foi minha quarta ortografia e, provavelmente, a primeira da maioria dos que me leem.
Depois, veio esta última ortografia que agora é lei. Minha quinta. Pensei que nem ia pegar, e até escrevi isto aqui. Mas acabou entrando em vigor e pegou. Houve muitos protestos, como houve em 1971, como houve em 1943, como houve em Portugal 1911. Perdemos uns acentos aqui e ali e muita gente achou que, sem acento idéia ia ser pronunciado idêia, ou que ninguém ia mais ter ideias. Nada disso aconteceu. Quem tinha idéias, agora tem ideias. Quem não tinha as primeiras, não tem as últimas. E os únicos que pronunciam ideia com ê fechado são aqueles que têm como língua nativa o espanhol — mas esses não têm remédio mesmo.
Conforme prometido, lá vai o segundo episódio do ataque do monstro Gudenaf ao planeta das traduções juramentadas. Para ser mais exata, digamos que, desta vez, um super-herói de um consulado entrou em ação no último instante e evitou uma catástrofe.
Chega o cliente com uma pilha de documentos para um processo de imigração. Segundo nossa secretária “só faltou trazer a placa com o nome da rua para traduzir”. Detalhe: já estava tudo traduzido por alguém que se intitula “professional translator” no timbre que criou imitando os TPICs, assina a tradução a la mode de TPIC, menciona carimbos e autenticações como é praxe entre TPICs, mas não é TPIC. É o monstro Gudenaf em pessoa! Muito aliasmente, constatei que nem se dignou a prestar o recente concurso para TPIC no Paraná. Pretende mesmo continuar atuando como pseudoTPIC.
Como o timbre deixava claro, o serviço foi prestado por um tradutor profissional (!), não por Madre Teresa de Calcutá. O cliente pagou pelo trabalho, mas as traduções foram recusadas pelo funcionário do consulado destinatário da papelada. Para dar continuidade ao processo de imigração era preciso traduzir tudo de novo por um TPIC de verdade, euzinha, no caso, cuja vocação para Madre Teresa é exercida em outras áreas, não na tradução. Bem, até tentei madreteresar um pouco por pena do cliente. Talvez fosse possível aproveitar algo da tradução anterior. Não era! Só para citar dois entre uma infinidade de exemplos, tudo que era “fiscal” tinha virado “physical”, os funcionários juramentados do cartório eram “oaths” … A única saída era refazer do zero e cobrar de acordo.
Termino com um pouco de “alimento para o pensamento” ou “food for thought”, como diriam na Gringolândia:
1) O professional translator agiu de má-fé? Sim e não. Sim porque fica óbvio que ele tenta se passar por TPIC. Não porque, salvo disposição em contrário, nenhum país estrangeiro exige que os documentos sejam traduzidos por TPIC brasileiro. Só que o funcionário super-herói dispôs em contrário e impediu novo ataque do Gudenaf. Talvez para facilitar a própria vida e dos candidatos a imigração, sim, o consulado em questão exige que a tradução seja feita por TPIC tupiniquim. Caso contrário, a tradução do professional translator teria servido.
2) O super-herói recusou as traduções pela má qualidade ou simplesmente verificou numa base de dados que não existe TPIC com aquele nome? Aposto todas as minhas fichas na segunda opção. Se o professional translator efetivamente fosse TPIC, o Gudenaf teria atravessado fronteiras sem entraves, levando os physicals e oaths na bagagem.
3) Cabe uma denúncia? Quem faria? Eu??? O cliente supostamente lesado? Digo supostamente porque o tradutor pode ter explicado que não era TPIC, mas que isso não costuma ser uma exigência e o cliente resolveu, literalmente, pagar para ver sem se informar previamente.
Não é muito segredo, sou reclamona. Quem não reclamar nunca nem tiver algum defeito que me processe. E já falei aqui que odeio ser revisada, faz uns dois anos, eu acho, e esse ódio diminuiu bastante, principalmente depois que peguei experiência em revisar. Porque foi aí que eu vi que nem toda correção é uma vergonha para o corrigido, que trocar “normas” por “regras” é normal, porque oras, ninguém tem bola de cristal para saber a preferência do cliente e que até umas escorregadas feias, às vezes, acontecem.
Claro, nosso dever é trabalhar para diminuir ao máximo o número de erros, sejam grosseiros ou não. Mas eles ainda assim acontecem e, salvo exceções radicais, não é por isso que vamos perder o sono à noite.
Quando estou revisando, converso com o que chamo de “meu tradutor”. Como tenho revisado muita tradução retalhada, que já vem pré-traduzida da agência, “meu tradutor” não é necessariamente quem confirmou o segmento na memória. Então, se eu reviso o Danilo, nem sempre é o Danilo o “meu tradutor”. Mas, bem, vou conversando com esse ser fictício, parabenizando por boas saídas, xingando, às vezes em voz alta, pelas escorregadas.
Numa dessas, estava eu xingando a besta quadrada que escreveu uma bobagem qualquer, um pleonasmo bobo, quando, mais pra frente na frase, percebo que a besta quadrada era eu. Pelo menos animou meu dia, em meio a uma revisão infernal, e dei umas boas risadas. Da próxima vez, já sei que não vou escrever “lista completa com todos os erros”.
(Baseada em fatos reais, com toques surreais.)
(Som de telefone tocando)
– Alô?!
– Oi, Danilo, tudo bem? É a Cenossélia!
– Tudo bem, Cenossélia! E você?
– Tudo bem, também, graças a Deus. Tenho um servicinho para você.
– Um “servicinho”?! O que é?
– Precisamos que você dê uma olhadinha num texto. Já está em inglês!
– Como “uma olhadinha”? Para que você quer que eu “dê uma olhada” no texto?
– Ué, para ver se tem algum errinho, oras!
– Bom, mas isso não vai resolver nada, não é? Porque se eu olhar e encontrar algum erro, vai continuar lá, oras!
– Você é um gozador, Danilo, um gozador! É para você me dizer se encontrou algum errinho.
– Ah, você quer um parecer, um documento dizendo “Cenossélia, na segunda linha, onde diz ‘oficial governamental’ deveria ser ‘alto funcionário’”? Isso é um parecer, não uma olhadinha. Um parecer serve para fazer uma avaliação. Quer dizer, para você saber se quem traduziu era bom de taco ou não. Você quer um parecer sobre o texto todo ou só sobre uma amostra?
– Sobre uma amostrinha, só, uma pagininha ou duas, para você não gastar muito tempo.
– Então, me manda só uma ou duas pagininhas.
– E se tiver algum errinho nas outras?
– Bom é um parecer sobre duas páginas. Daí você tira as suas conclusões.
– Danilo, você é um chato. Eu queria que você desse uma olhada em tudo.
– Acho que já discutimos isso, Cenossélia, “dar uma olhada” não resolve o seu problema. Vamos ter de discutir isso de novo?
– Não, tá bom, você está mais chato do que de hábito, hoje. Um parecer, pronto! Oh, cara!
– Quanto é “tudo”? Pergunta ao Word quantas palavras são. Sabe fazer isso?
– Sei, são 5.000 palavras.
– Um parecer sobre um texto de 5.000 palavras, cobrindo todos os erros, vai ser um monstro de umas 100.000 palavras, porque vou ter que justificar todas as alterações. Quer dizer, se encontrar ‘oficial governamental’ em vez de ‘alto funcionário’, vou ter que explicar a diferença e tal. Dá um trabalho danado.
– Danilo, tem dia que eu quero te esganar, sabia? Por que você não corrige o erro de uma vez em vez de ficar esticando o assunto?
– Ah, você quer uma revisão!
– É, é, é, uma revisão, pronto! Eu quero UMA REVISÃO, pronto! Que coisa! Um advogado nosso escreveu o parecer jurídico e nós queremos que você revise. Você é um chato, desagradável, prepotente, criador de caso, cabotino, mas nós queremos que você revise, porque vai para um cliente importante e nós queremos ter certeza que esteja tudo certo.
– Ah, se você quer uma revisão! Por que não disse logo? E o texto está em inglês, então?
– Sim, em inglês. Para que eu preciso que você dê uma olhada em textos em português?
– Olhada não ia adiantar nada, como já discutimos, mas, lembrando da qualidade do último texto que eu traduzi para vocês, uma boa revisão até que não caia mal.
– Quem escreveu o último texto que eu te mandei foi um advogado.
– Espero que ele saiba mais direito que português.
– Você é irritante, arrogante, prepotente e, principalmente, chato, muito chato. Vai fazer o serviço, ou não?
– Custa X.
– Tudo isso para dar uma olhada num textinho?
– Vamos começar de novo?
– Não, não vamos. “P A R A R E V I S A R U M T E X T O”, pronto. Você está passando dos meus limites.
– Quero prestar um bom serviço. Um bom serviço começa com uma boa discussão. Temos que nos entender perfeitamente sobre o que vocês precisam e eu vou fazer, para não dar confusão. Já pensou, se eu dou uma olhadinha, te devolvo, mas você queria uma revisão?
– Tá bom, que seja, já discutimos muito. Não dá para fazer mais barato?
– Se você quiser que eu traduza tudo do zero, te dou um desconto de 30%.
– Mas como? Cobra menos para traduzir do que para dar uma olhada?
– Dar uma olhada, eu dou de graça, mas acho que já discutimos isso bastante.
– Tá bom, tá bom, não me faça dizer o que eu não quero. Que seja! Você cobra menos para traduzir do que para revisar?
– Sim, sempre que a tradução for feita por um amador, cobro menos para traduzir do que para revisar, porque revisar serviço de amador dá mais trabalho que traduzir..
– Como “amador”? O texto foi feito por um advogado experiente. Chama o Dr. Asnélio de amador e ele te processa por crime contra a honra.
– Experiente como advogado. Mas tem experiência como tradutor?
– Por que eu ainda falo com você, Danilo? Por quê? Não, não tem experiência como tradutor. Mas é um excelente advogado!
– Sim, mas eu não vou revisar o lado jurídico do texto, vou revisar o lado tradutório. É diferente. Não costumo prestar esse tipo de serviço, mas, para vocês que são clientes antigos, vou abrir uma exceção.
– Tá bom, tá bom! Você está impossível, intragável hoje! Mas não tenho outra saída. Vou mandar para você e, pelo amor de Deus, isso é para ontem.
– O serviço que era para ontem eu entreguei anteontem e o cliente me mandou a semana passada.
– Danilo, se eu não fosse uma menina educada, você ia ouvir o que o diabo não ouviu do exorcista.
– Ainda bem que você é educada. Porque, se não fosse, não seria minha cliente. Então manda e eu faço com a possível rapidez. Não esquece de mandar o original.
– Como, “o original”? Que original, Danilo? O original é o inglês.
– Tradução é obra derivada, está na lei. Tem o original e tem a tradução. A tradução depende do original. Sem original não há tradução. Tem que me mandar o português, para eu acompanhar e ver se tem alguma coisa errada.
– Danilo, NÃO TEM PORTUGUÊS! O ADVOGADO ESCREVEU DIRETO EM INGLÊS para poupar o tempo dele e o seu! Por isso eu não aceitei teu generoso desconto de 50% para traduzir!
– O desconto era de 30%, não de 50%, e não tem nada de generoso, mas isso não faz diferença. Então, para resumir, você tem um texto escrito diretamente em inglês por um advogado brasileiro e você quer que eu revise?
– Sim, sim, sim!!!!! EU TENHO UM TEXTO ESCRITO EM INGLÊS POR UM ADVOGADO BRASILEIRO E QUERO QUE VOCÊ REVISE!!!!!!!!!!!
– Ah, desculpe, demorou para cair a ficha!
– Agora, caiu?
– Sim, sim, agora caiu. Vocês têm aí um advogado que escreveu um texto diretamente em inglês e quer que eu revise o texto para corrigir os eventuais erros?
– Isso, isso, isso! Estamos há meia hora discutindo só para você entender o que eu quero!
– Bom, mas se você pede pizza quando quer feijoada, a coisa fica complicada.
– Tá bom, não vamos discutir mais. Vou te mandar o serviço.
– Não, não manda não.
– Por quê? Como, “não manda não”? Depois de tanta discussão, você não vai fazer!? Que frescura é essa, agora?
– Não, não vou fazer. Se você tivesse dito logo de cara o que era, tínhamos poupado muito tempo, seu e meu. Não presto esse tipo de serviço.
– Por quê? Como “não presto esse tipo de serviço”? Estou pagando!
– Não, não está pagando, está se dispondo a pagar, o que é outra coisa. Mas eu não posso aceitar o serviço. Deixa explicar: inglês não é minha língua materna e meu inglês é, por natureza, deficiente, mas , paciência, a gente tem que lidar com isso. Revisar uma tradução de um texto em português é um esforço terrível, um risco muito grande, mas, como faltam revisores jurídicos falantes nativos do inglês, a gente até que encara. Mas, sem original? Se não tem original, quando o texto estiver enrolado, eu não vou ter como desenrolar. Não posso aceitar essa responsabilidade.
– #@!¨%$#@@@@!!!!!!
(Tenho que agradecer ao DiVasca pela inspiração)
Era o Barbosa Lima Sobrinho que dizia que a gente tem três idades, a juventude, a maturidade e a “nem parece”.
Hoje, faço 69 anos — bem na faixa do “nem parece” — e, como também estamos no fim do ano civil, aproveito a oportunidade para conjugar uma notazinha egocêntrica sobre meu aniversário com meu balanço anual.
Estou entrando no inverno da minha vida, ou talvez já esteja lá há tempos, não sei. Decididamente, estou velho. E não me venha com essa bobagem de “melhor idade”, “idade de ouro”, por favor. Velho é velho e pronto. Eu sei. Se você está na minha faixa etária, também sabe. Se não está, vai saber quando chegar lá. E, quando chegar lá, espero que, como eu, não tenha vergonha de ser o que é.
Estou bem de saúde, mas minha saúde não é mais o que era, se me faço claro. Os joelhos já não dobram e desdobram como antigamente, as ladeiras parecem mais íngremes, os degraus ficaram mais altos, fico cansado com menor esforço e maior rapidez.
É certo que em Paris fiz uma palestra de umas boas cinco horas num só dia (descontado o tempo em que falou a Kelli), em pé, e aguentei bem o tranco. Mas aí é a adrenalina que jorra.
Minha memória começa a falhar: só me lembro dos amigos e das coisas boas, ao passo que do resto, esqueci tudo.
Estou me aposentando aos poucos e trabalhando cada vez menos. Que faço com meu tempo livre? Boa pergunta. Em parte, em grande parte, estudo e escrevo. Quero ter algumas coisas escritas antes de ficar totalmente gagá, um estado, que, segundo alguns, já atingi faz tempo.
Foi um bom ano? Ah, lá isso foi.
Acompanhado da Kelli, fiz palestras no Brasil, Argentina, França e Portugal, sempre a convite.
No Brasil, falamos na USP, o que não é pouca honra para um sujeito como eu, que jamais concluiu o curso médio.
Na Argentina, além de uma palestra sobre terminologia tributária brasileira, ainda me bati em “trielo” com dois gigantes, não tendo me saido de todo mal.
Em Portugal, passei momentos emocionantes. Esses momentos tiveram um poslúdio ainda mais emocionante, quando há poucos dias o correio me entregou uma daquelas capas negras que fazem parte do traje acadêmico português. A capa me foi enviada por um grupo de alunos da Universidade do Minho, como demonstração de que eu tinha sido aceito como um deles. Assim está escrito em uma carta que acompanha o presente. Ou “a prenda” como dizem em Portugal. Vou tirar uma foto com ela, para exibir a prova aqui. Aos amigos portugueses, meu abraço apertado. Muito apertado.
Na França, além de um bem-sucedido dia falando do Brasil a quase uma trintena de colegas vindos de três países e que traduzem do francês para o português ou vice-versa (e note-se que nem a Kelli nem eu falamos francês), ainda tivemos a hospedagem carinhosa e generosa da Maria Marques somada a um jantar incrível preparado pela Chris Durban. Antes que me esqueça: Paris é, de fato, uma festa.
Vamos começar o ano com o pé direito, participando de uma mesa redonda promovida pela Hub (do grupo SBS), sobre a qual você pode saber mais clicando aqui.
Para coroar, a Kelli este ano, além de ser minha companheira de viagens e aventuras intelectuais e vítima habitual da minha desordem contábil, ainda conseguiu firmar-se como tradutora, revisora e implantadora de MemoQ, criando sua própria carteira de clientes. Para mim, foi um presente e tanto. Principalmente porque a parceria continua viva.
Em janeiro, vamos incluir mais uma colaboradora no blogue.
Não ficam só nisso as boas notícias, mas é só disso que vou falar aqui.
Diga, não foi um bom ano? Espero que o seu ano tenha sido ainda melhor que o meu e que, em 2012, continuemos a jornada juntos. Obrigado pela companhia até aqui.
Quem esteve na III Conferência do ProZ no Rio em novembro assistiu a excelente palestra da Johanna Angulo sobre as mudanças constantes das necessidades dos clientes de tradução hoje em dia. Entre outros, ela citou o conceito de “good enough”. Alguns textos, por exemplo, nascem em um site de manhã só para se desintegrarem no espaço cibernético à noite. Não há tempo para uma tradução elaborada, nem, economicamente, se justificaria pagar um alto custo por ela. Portanto, ser boa o suficiente é o que basta.
Acontece que já é difícil definir uma boa tradução. Some-se a essa dificuldade o conceito extremamente elástico de “suficiente” e o cenário fica cinzento. Dois exemplos de péssimas traduções que foram, sem sombra de dúvida, consideradas “good enough” me assustaram recentemente e me deixaram com muito medo desse tal de Gudenaf! Certamente não era isso que a Johanna tinha em mente quando fez o comentário, mas foi a experiência que eu tive na vida real.
O primeiro caso foi a tradução para o português da documentação de um processo que tramitou em uma corte internacional. Abro o arquivo e dou de cara com 32 páginas nesse diapasão: “From the desloyal party’s presentation, can be extracted the requests’ basis__: on the alleged unilateral breach of the called “Services Agreement” after 31 May 2010, before the expire the alleged termination date of 30 May 2020.” Isso mesmo, ipsis litteris, y compris a pontuação maluca!
Meu primeiro pensamento foi: “É impossível traduzir algo assim, mas como vou dizer isso para o cliente que, provavalmente, é o próprio autor?” Várias partes do texto denunciavam que o mentor do crime linguístico era brasileiro. Portanto, talvez existisse um original em português que serviu de base para essa barbaridade mandada para o exterior. (Em tempo: não há exigência alguma de uma tradução para idioma estrangeiro ser feita por tradutor juramentado. Se o país destinatário aceitar, pronto, é good enough.) Só no final havia umas três páginas originais em inglês de verdade, acrescentadas ao processo pela corte internacional.
Respirei fundo, li o arquivo e minha conclusão foi que a papelada precisava ser traduzida para o português para tramitar na Justiça brasileira em um processo complementar ao que já havia se encerrado lá fora. Eureka! Entrei em contato com o cliente e perguntei, com todo tato, se efetivamente existia o tal original em português. Bingo, suspeita confirmada. “Então, o Sr. me envia o arquivo, só lhe cobro uma taxa de revisão dessas 32 páginas, insiro na minha “tradução”, traduzo as três páginas finais et voilà, o Sr. fica com tudo bonitinho para protocolar na Justiça brasileira!“ Negócio fechado, suspiro aliviado.
Assim foi feito e viveram todos felizes para sempre. Quase todos. Eu estou até agora pasma pensando como esse processo tramitou nas altas instâncias da Justiça internacional sem percalço algum com base em um texto do nível do trecho reproduzido acima. Só Jó para ler tudo isso, extrair algum significado e dar uma sentença final sobre uma pendenga jurídica. Mas o fato é que, nem que seja para esse único Jó, foi bom o suficiente. A tradução cometida no Brasil por um advogado não tradutor cumpriu plenamente sua função e o hipotético zelo de mandar antes para um professional competente e pagar caro por isso teria sido dinheiro posto fora.
Sei que contra fatos não há argumentos, mas sintam-se à vontade para argumentar. Eu e meus botões argumentamos que foi exceção, não é sempre assim, poderia ter dado o maior pepino lá “no estrangeiro”, voltariam correndo para implorar de joelhos para um tradutor decente fazer o trabalho … yadda … yadda … yadda, mas tudo isso só no campo das hipotéses, porque a realidade foi diametralmente oposta.
(O último acréscimo a este post foi o “(1)” no título. Cogitei contar dois casos de ataque do monstro Gudenaf ao planeta das traduções juramentadas, mas ficou muito longo. Aguardem o segundo episódio.)
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