O texto abaixo foi escrito pela Kelli, que me pediu para postar, por motivos que entendo muito bem. Embora pudesse dizer muito sobre a Marion, não poderia dizer melhor que a Kelli, então, vou deixar que ela fale por nós dois.

A Marion nos deixou na madrugada do dia 25 de janeiro de 2015. 

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Eu sempre digo aqui que virei tradutora por conta do convite para trabalhar com o Danilo. Não é mentira, mas esse convite só veio porque, um dia, eu resolvi sair de São Carlos e participar do Encontro de Férias da SBS (em janeiro de 2007). Foi nesse encontro que conheci o Danilo e mais uns tantos tradutores e que comecei a mudar minha vida, para muito melhor e sem volta.

Na época, dava aula de inglês e era péssima negociadora. Resultado, o dinheiro não era lá aquelas coisas. Não rolava pagar hotel. Eu não sabia para que lado ir para sair de uma estação de metrô, não sabia pegar ônibus em São Paulo, não conhecia nada e sentia um medo incrível de me perder por lá. Caipira do interior é assim, gente. Quem possibilitou essa viagem foi uma senhorinha, a mais fofa das senhorinhas, a Lady Marion. Sem nunca ter me visto mais gorda, ela ofereceu um quarto, café da manhã e as conversas mais incríveis enquanto fiquei na casa dela, que a partir de então ficou conhecida como a pousada São Jerônimo. Outros tradutores se hospedaram lá também, depois.

Acabei voltando várias vezes. Porque gostava de São Paulo, porque gostava dela, porque tinha algum evento, porque queria sair para dançar; motivo nunca faltou. Formávamos uma dupla boa: a Pfeffer (pimenta) e eu, a Pimentinha. Mais de uma vez ouvi coisas como “leva o casaco, filhinha, vai esfriar”. Filhinha, era assim que ela me chamava. Quando eu perguntava se podia ir para lá em tal data, recebia como resposta “Claro, filhinha, o que você quer comer?” e, quando eu chegava, estava tudo lá do jeito que eu gostava. E me contava histórias, da infância e da juventude, e da dança, e dos casamentos, e dos filhos, e das traduções, junto com torradas e pães e bolos e chás e sopas. Uma mãe, realmente, e agora que ela se foi, fiquei meio órfã. O céu até pode ter ganhado uma estrelinha a mais, mas o mundo ficou mais pobre de graça, elegância e bondade.

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 A foto mostra nós três, jantando na Cantina Castelões, pizzaria quase centenária de São Paulo.