Amiga minha, que deu permissão para usar sua ideia, mas prefere ficar anônima, topou com esta frase em inglês:

If you require further information please do not hesitate to contact me.

A frase não tem nada de excepcional, é um fecho comum para correspondência comercial em inglês, mas pode ser uma liçãozinha de técnica de tradução para nós. Muitos traduziriam por:

 Se você precisar de mais informações, não hesite em contactar-me.

… com uma meia dúzia de variantes estilísticas.

Errado, errado, de dizer errado, não está. Gramática correta, sentido idêntico, registro igual, essas coisas. Mas se errado não está, bom também não está. Muitas vezes, a distância que separa uma tradução correta de uma boa tradução é grande — e esta é um caso. Por quê?

Para começo de conversa, tem o você. O you é sempre um problema. Primeiro porque o pronome de segunda pessoa, em inglês normalmente indispensável, costuma ser opcional em português. Se tirarmos o você, não perdemos nada. Aliás, questionar cada você usado em uma tradução é um bom primeiro passo para melhorar a qualidade. É necessário? Tudo bem, mantém. Pode mudar? Melhor, então muda. Pode simplesmente cortar? Ótimo, então corta. Não acumule peso morto nas costas de sua tradução, coitadinha.

Em segundo lugar, o português tem mais de uma maneira de traduzir you, dependendo do grau de formalidade. Neste caso, poderia ser vossa senhoria, que está caindo da moda, mas não tem um bom substituto. Poderia ser senhor, mas iria adicionar um toque sexista desnecessário e, vamos falar a verdade Se o/a senhor(a) precisar de mais… fica horroroso e não resolve muito. Então tira, que é melhor, e pronto.

Embirro com o não hesite. Está virando moda, mas ainda cheira muito a inglês, para meu gosto, – e não gosto de traduções que tenham cheiro da língua de partida. O contactar-me também me incomoda. Errado, não está, mas acho que o desdobramento do verbo inglês em entre em contato melhora bem a frase, além de permitir um comigo, cuja colocação não vai ser contestada por ninguém. Sim, alonga. Entretanto, me parece mais idiomático.

 Mas a colega sugeriu mais ou menos isto:

 Permaneço inteiramente à (sua) disposição para outras informações que se façam necessárias.

A frase é normal, padrão em português e, segundo ela, faz parte do repertório que adquiriu numa vida pregressa como secretária, o que sempre é um ponto positivo: quer dizer, é correntia. Não é uma tradução do inglês, mas, para nossos fins, vamos tratar como se fosse.

A frase tem várias versões, com dois pontos em comum, que a distingue da homóloga inglesa.

O primeiro, é que o sujeito da oração principal está na primeira pessoa, embora oculto. Em português, elipse de sujeito é elegância de estilo, em inglês é raridade. Mas o interessante é o ser a primeira pessoa: em vez de falar de você, das suas necessidades, falo de mim, da minha disposição em ajudar. Algum sociólogo que explique isso, mas, do ponto de vista da redação, há, de fato, uma preferência no inglês de usar a segunda pessoa, um dos motivos da montanha de yous,  que nos soterra. Tradutologicamente, essa mudança de segunda para primeira pessoa é um caso de modulação, como diriam meus grandes amigos Vinay e Darbelnet.

O segundo ponto que me chama a atenção é que o verbo need é traduzido por um adjetivo: necessárias, uma outra tendência do português, de privilegiar o substantivo/adjetivo (“nomes”, para alguns) como portadores de informações que, em inglês, são transmitidas pelo verbo.

Valeu a liçãozinha? Espero que sim. Tenho mais umas quantas vindo por aí.

Dois recadinhos para você que está me lendo agora:

 

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