Cada vez que aparece alguém perguntando sobre preços, aparece alguém indicando a Tabela do Sintra. E sempre há o mesmo debate: uns dizem que cobram pela tabela do SINTRA, porque o SINTRA é nosso sindicato e cobrar menos que a tabela é falta de profissionalismo; outros alegam que a tabela está fora da realidade do mercado.

Eu digo que a tal tabela não tem muito pé nem cabeça. Ou, se tem, não consigo achar.

Para começar, não é uma tabela. São valores de referência, o que quer que isto signifique. Não são pisos nem tetos, ninguém é obrigado a cumprir.

Os tradutores reclamam que as agências não pagam a tabela, muitas agências dizem que os clientes delas pagam a elas a tabela e que, portanto, não podem pagar a tabela aos tradutores. Ou seja, muitas agências alegam que os valores de referência são aqueles que devem ser pagos pela tradução, não os que devem ser pagos ao tradutor. Os editores reclamam da crise do livro. Já reclamavam em 1970, quando eu comecei, acho que é meio compulsivo. Mas não quero me desviar do assunto de hoje.

Logo no início,  uma mensagem críptica grita em caracteres vermelhos:

(*) Valores referentes aos serviços prestados em inglês, espanhol e francês. Outros idiomas, considerados raros, terão preços diversificados.

Outros idiomas, considerados raros, um adicional de 30% com relação aos Idiomas Comuns.

Parece uma nota. Se é, está mal colocada, porque, acima dela, não há valor algum e o asterisco fica assim, voando no espaço feito um balão de festa junina. Além disso, parece que um parágrafo deveria substituir o outro, mas quando puseram o outro não tiraram o um (ou vice-versa) então em vez de um parágrafo ficaram dois.

Mas aprendemos que, idiomas que não sejam inglês, francês e espanhol são considerados raros e, por isso, terão preços diversificados, o que quer que isso signifique.

O segundo parágrafo parece contradizer ou complementar o anterior, porque fala em um adicional de 30% em relação aos Idiomas Comuns. Não entendi o porquê das maiúsculas aí e acho que falta um verbo, mas aprendemos que, por exemplo, como italiano é considerado raro (por quem?), traduções dessa língua têm preços diversificados e custam 30% mais que as, por exemplo, do francês. De um modo ou de outro, acho que não congemina muito. Falta uma revisão, aí, penso eu.

Vamos em frente. Traduções têm valor de referência de R$ 0,34 por palavra. Palavra do que? Do original ou da tradução? Porque faz uma diferença, não? Um texto traduzido do inglês para o português vai espichar ao menos uns bons 20%, portanto, se cobrado pelo número de palavras da tradução vai ficar bem mais caro do que se cobrado pelo número de palavras do original.

Depois vem a história das traduções literárias. Traduções literárias, aparentemente, são cobradas por lauda. Que seja. É uma tradição do mercado editorial e tem gente que jura que a lauda é sagrada e a única maneira correta de cobrar por uma tradução. Abandonei a lauda em algum momento do século passado, mas sempre fui um velhinho metido, mesmo quando ainda era jovem. E não faço literária. Mas, tudo bem. Se é por lauda, há de ser por lauda de chegada, ou, ao menos, eu jamais vi alguém cobrando por lauda de partida.

Em seguida, o SINTRA define sua lauda, o que significa que além das laudas das Juntas e das editoras, jornais e de mais sabe Deus quem, temos também a do SINTRA. Não faz diferença. Ou faz, porque a maioria dos tradutores tem problemas com matemática superior e não consegue converter uma lauda do SINTRA na lauda do seu cliente, para saber se o vale a pena aceitar o serviço. E temos colegas que lutam pelo emagrecimento da lauda, em vez de pelo aumento da taxa.

Mas minha bronca principal aqui é com a oposição entre tradução e tradução literária. O que o SINTRA quer dizer com isso? Porque me parece estranho. Se fosse tradução literária × tradução não literária, ainda vá lá. Mas tradução × tradução literária me parece um pouco ilógico. Tradução literária é uma espécie de tradução, creio eu. A outra deveria ser tradução não literária, se é para serem duas. Além disso, definir o que possa ser tradução não literária é meio para o lado do semiconfuso, Shakespeare é literário, lista de peças não é literário, mas tem muita coisa no meio. Platão, por exemplo. Ou Santo Agostinho. Ou Freud. São mais pro lado do Shakespeare ou da porca-e-parafuso?

Em seguida, clamam, em negrito parentético: (direitos autorais à parte). Ou seja, o SINTRA entende que o tradutor de literatura faz jus a um tanto por lauda, mais outro tanto direitos autorais. Esqueceram de combinar isso com os editores, que afirmam que o tanto por lauda são os direitos autorais.

Antes de encerrar, coloco uma questão que me foi encaminhada pelo nosso prezado colega Alfácio Beterrábio das Couves, ABC para os mais íntimos. O ABC traduz livros de medicina para uma carrada de editoras. Medicina, esclarece ele desnecessariamente, não é literatura. Logo, não pode ser cobrado como tradução literária, certo? Então, como deve cobrar das editoras? Por palavra e sem direitos autorais?

Fico por aqui. Podia escrever mais, um bocado mais. Mas é melhor parar.

(Este artigo é uma reciclagem de algo que publiquei há cinco anos. Reciclei porque o anterior citava valores que já não são mais aplicáveis e também porque me deu vontade e o blogue é meu e eu reciclo quando quiser e pronto (acordei de mau humor, desculpe). Nesse tempo todo, mudaram os valores, mas minhas críticas, ao menos a meu ver, continuam válidas.)

 

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