Escreve a E.:

“Olá, Danilo, tudo bem? Eu participo do grupo de tradutores e interpretes há mais de dois anos, nunca participei muito do grupo, mas sempre fiquei de olho no que estava acontecendo. Sou formada em tradução e vim atrás de algumas dicas. Não sei se por eu ser muito nova, apesar de ter muita experiência em tradução, não estou conseguindo achar trabalho na área. Estou até ficando triste, me mudei para SP atrás de emprego na área, mas até agora nada. Ontem eu recebi uma proposta, R$ 0,04 por palavra, recusei porque acho que meu trabalho vale mais que isso e acabei ficando mais chateada ainda. Você parece gostar do que faz e por isso vim pedir ajuda, uma palavrinha de animação que seja ou alguma dica. Obrigada pela atenção.”

Recebo mensagens destas às dúzias. São muito frustrantes, porque difíceis de responder. Difíceis, porque não há um caminho garantido para o sucesso, algo que eu possa dizer em dez linhas. Nem sequer em vinte. Posso contar a minha experiência, mas o caminho que vai servir para você não vai ser o que serviu para mim. Não vai, por dois motivos: o primeiro é que somos pessoas diferentes, o segundo é que as oportunidades que a vida nos reserva também são diferentes.

Ingressar no mercado de traduções é complicado — e não é só para você. O mercado é obscuro e desorganizado, as oportunidades estão lá, mas é difícil saber onde estão. Por isso, o iniciante tem que bater em mil portas, para que uma se abra e, quando essa uma se abrir, tem que por o pé para que não se feche de novo. Alguns têm sorte e já entram pelo portão da frente, com bons pagamentos e lindos textos para traduzir. A maioria entra pela porta dos fundos, suando muito para conseguir o primeiro serviço e mais ainda para terminar  o malfadado. Não sei onde você tem procurado, mas tem que procurar em tudo quanto é canto. Fazer contato com todas as agências e editoras, fazer todos os testes que aparecem, aparecer em todos os congressos e encontros que houver, participar dos grupos do FaceBook (você deve ter alguma contribuição a fazer, certamente – faça e apareça: ficar escondidinha não resolve nada).

Estude. Estude feito uma doida. A faculdade é o primeiro passo, só o primeiro, e não te ensina mil coisas que você tem que saber para começar. Você sabe usar ferramentas de tradução assistida por computador? Sabe como usar MemoQ, Studio, Wordfast, essas coisas? Baixe um demo e aprenda a usar. A maioria dos serviços, atualmente, vai para quem sabe usar uma dessas ferramentas.

Tradução, atualmente, é uma profissão globalizada. Não há razão para procurar viver em São Paulo para conseguir serviço. Você pode morar onde quiser (e onde gostar). Onde houver uma conexão razoável com a Internet, pode morar um tradutor bem-sucedido.

Finalmente, tem a história do preço. Deixa contar uma coisa para você, em segredo, só entre nós dois: no meu início de carreira, aceitei preços de dar medo. Com a inflação e mudança de moeda, não dá para dizer em termos de hoje quanto foi o mínimo que aceitei, mas posso dizer que dava tristeza. Muita gente diz que nunca aceitou preços baixos. Alguns tiveram mais sorte que eu, muitos simplesmente estão mentindo.

Não se envergonhe de aceitar preços baixos no início de carreira: faz parte do jogo. Mas procure sempre subir, galgar mais um degrau na carreira. Tenha como lema “o próximo cliente vai pagar mais”.

Tem muito mais coisa que eu gostaria de dizer, mas este artigo está ficando comprido demais para o blogue. Dê uma sapeada aqui onde há uns vídeos interessantes gravados por gente boa que podem te ajudar muito, inclusive este, gravado por mim.

E não desista. Que desiste, sempre perde.