Toda semana recebemos e-mails de pessoas que querem ser tradutoras. Para alguns, é possível prever um futuro brilhante já pela apresentação. A grande maioria, no entanto (e como é comum em qualquer profissão), chega a dar desespero. Gente que diz que “visitou” cursos de tradução,  que não sabe inglês tão bem assim, que não sabe procurar informação sobre cursos no Google, que diz que leu o blog todo e faz uma pergunta  já respondida umas 357,48 vezes. Tem os que pontuam impecavelmente, tem os que escrevem mais de cem palavras sem uma vírgula sequer. Para uns, dá gosto responder. Em  outros casos, a vontade maior é encostar ali no cantinho e morrer, seja de rir ou de chorar. Pensando nesses muitos e-mails, decidimos escrever o ABC de como se tornar tradutor. O texto principal é meu, com palpites do Danilo. Espero que gostem.

Tradutor não tem idade. Aliás, quanto mais velho, melhor: experiência de vida conta MUITO na hora de traduzir. O Danilo cansa de me falar aquele ditado que diz que mais sabe o diabo por ser velho que por ser diabo. É por aí. Isso não quer dizer, em absoluto, que os jovens não possam traduzir. É só um “plus a mais” que os mais velhos têm.

Tradutor não tem endereço. Contanto que você tenha banda larga, pode traduzir de qualquer lugar do mundo, seja uma grande metrópole ou Xiririquinha da Serra. Moro em São Carlos e não tenho um único cliente na minha cidade; o Danilo mora em São Bernardo e também não tem. Coisa mais século XX isso de achar que tem que trabalhar só com clientes da mesma cidade! Depois da Internet isso não existe mais, sinto informar. Nem sequer conheço meus clientes pessoalmente.

Tradução não é profissão regulamentada. Então, tanto faz se você é formado em Letras, Tradução ou Física Quântica Aplicada aos Guaxinins do Deserto do Saara.

Existem os prós e os contras de qualquer formação (ou falta de). A vantagem dos formados em Letras e/ou Tradução é que talvez (taaaalvez), com um conhecimento mais aprofundado de Linguística, Gramática, Análise do Discurso e mil outras disciplinas teóricas, eles tenham mais base para brincar com as palavras sem ferir a norma culta, por exemplo.

Mas formados em Letras e Tradução não têm uma coisa que os formados em outras áreas têm: nicho. Se você fez Direito, oras, vá traduzir textos jurídicos! Dá uma boa grana. Se fez Engenharia, tem tanta coisa de porca e parafuso por traduzir! E assim em todas as áreas. Talvez, muito provavelmente, vai ser preciso estudar português muito mais do que os formados em Letras; mas eles têm que estudar a área a traduzir, então acaba ficando elas por elas, com a possível exceção da tradução literária ou de filmes.

Mas não se anime muito, não há tanta tradução literária assim e uma boa parte dos audivisuais a traduzir, seja legenda, dublagem ou voiceover, é de cursos de treinamento em assuntos técnicos. Se você não tem formação alguma… bom, o Danilo também não tem e aprendeu contabilidade a força — e o pior é que eu estou indo pelo mesmo caminho. É o caminho mais árduo, mais difícil, mas quem disse que ia ser fácil? Mãos à obra, meu povo.

Todo tradutor “ama” línguas (idiomas, sua mente suja). Isso não é, nem nunca foi, diferencial para quem quer traduzir. Não tem como passar a vida trabalhando com idiomas sem ter amor por eles. Mas “amar” línguas não é suficiente. Nem de longe. Aliás, o mundo tá cheinho de gente que adora inglês mas não sabe traduzir. Porque não basta amar inglês, ser fluente em francês ou ter morado vinte anos na Alemanha. Também não basta saber escrever brilhantemente em português, embora isso seja pré-requisito. Para traduzir, é necessário, fundamental e vital ter habilidade para ler o que o autor não quer dizer, mas é obrigado — e aprender a reescrever tudo na língua de chegada, no estilinho apropriado. É preciso saber olhar um texto e enxergar além da maquiagem, cada defeitinho, cada gordurinha disfarçada. E, infelizmente, é uma habilidade que eu nunca vi alguém aprender na escola.

Tem tradutor, principalmente entre os mais velhos, mas não só, que se orgulha de não saber usar o computador direito. Tenho uma novidade: computador não é uma máquina de escrever mais molinha ou mais bonita. Aprenda a usar o Word, tem recursos fenomenais. Aprenda a usar as marcas de revisão. Aprenda a mexer com tabelas, tabulação, folhas de estilo, paragrafação. Aprenda a trabalhar com pdfs, mesmo os mais ferrados, porque os simples, bom, os simples qualquer um faz. Aprenda, acima de tudo, o que são e como funcionam as CATs. Experimente várias, escolha a que melhor combina com você e seu bolso. Tem para todos os gostos. Tudo isso é necessário para poder oferecer ao seu cliente, agência ou direto, um serviço diferenciado.

Acho que a pergunta que os tradutores mais temem, daquelas que os iniciantes/aspirantes sempre fazem, é sobre conseguir clientes. Não por se sentirem ameaçados, que tradutor bom sempre se vira, mesmo que perca o cliente. Arruma outro. Eu, particularmente, não gosto dessa pergunta porque, em primeiro lugar, nunca perguntei nem ninguém nunca me falou. Como se consegue trabalho em outras áreas? Mandando currículos, conhecendo gente da área, construindo sua rede de contatos? Pois é, em tradução não é diferente. Você pode ser o tradutor mais brilhante do mundo. Mesmo assim, se não se mostrar, se não for atrás, se não houver esforço e marketing da sua parte, vai passar fome. Estou cansada de ver tradutor nem tão bom assim com serviço vazando pelo ladrão. São bons vendedores de si mesmos, e isso é algo que eu respeito. Se eles, com serviço assim meio mais ou menos, conseguem clientes, por que você, um tradutor dos bons, não conseguiria? Mostre-se. Participe de eventos, tanto de tradutores quanto da sua área de especialidade. Você trabalha em casa, mas o contato com o mundo exterior é fundamental. E, por último, tenha em mente que não se constrói uma carreira de sucesso em duas semanas. A persistência é a chave.