Ontem comecei a falar sobre o uso de “versão”, no Brasil, como sendo “tradução do português para outra língua”. A ver se termino hoje. Vamos lá, mas é melhor começar pelo artigo de ontem, que está aqui abaixo, antes de ler este aqui.

Um colega nosso me dizia que seus clientes não entendiam a diferença entre “tradução” e “versão”, mas isso deve ser porque ele cobrava 30% a mais pelos serviços de “versão”, não por qualquer outro motivo mais nobre. Dizia ele, lamentoso, que mais de uma vez tinha recebido “versões”, quando o preço combinado era para uma “tradução”, o que tinha levado a muita discussão, porque ele tinha dito que o preço era X e agora dizia que é Y e como é que fica? Nem todos os clientes fazem essa confusão por inocência, é verdade.

O caso lembra um pouco aquelas infindáveis discussões sobre “lauda” (outro termo que me irrita) com os clientes que juram não entender porque um relatório de dez páginas “normais” tem vinte “laudas”. O que estou gastando de aspas neste texto não é brincadeira, mas acho necessário.

Mas, voltando à “versão” e à minha aversão pelo termo, quando usado no sentido de “tradução para língua estrangeira”, o colega que tem dificuldades para explicar ao cliente a diferença entre “tradução” e “versão”, que se precavenha, porque se o cliente for ao dicionário, o colega está perdido.

O Aulete Digital, por exemplo, diz que versão é sinônimo de tradução, embora sempre dê para pretextar o exemplo como apoio à causa: “Transposição de um texto para outra língua; TRADUÇÃO: Fez uma versão do português para o inglês.” O exemplo, entretanto, é capenga, porque se “versão” fosse sempre a partir do português, o exemplo seria “fez uma versão para o inglês”.

O Aurélio (que eu não tenho ainda e que cito graças a Susana Carpenter e Alexandre Weissmuller) também não ajuda muito: “2.Tradução literal; tradução.”

Pior ainda fica se for buscar alento no Houaiss, que diz “1. tradução de um texto de uma língua para outra; 1.1                exercício escolar no qual os estudantes traduzem um texto em outra língua para a sua própria”.

Como é que esses dicionários não reconhecem um uso que, embora não me agrade, é comum a ponto de fazer parte do vocabulário do sindicato (e não é um sindicato de analfabetos) e de documentos publicados pelas Juntas Comerciais? Aí entra a velha briga sobre se os dicionários devem registrar “o usado” ou “o correto”, que vamos deixar para outro dia, combinado? Ah, sim, claro, a discussão sobre o que é “correto”  também fica para outro dia.

Mas, o que quer que os dicionários devam registrar, é certo que os três acima registram mais ou menos o que deu na telha da equipe que os redigiu, que — e que ninguém nos ouça — uma que outra vez talvez se valha até de material encontrado em obras mais antigas, ou até estrangeiras, sem grande espírito crítico. Não acredita? Então, diga: de onde é que o Houaisss foi sacar o “exercício escolar no qual os estudantes traduzem um texto em outra língua para a sua própria”? Nunca ouvi falar nisso. Se existe, deve ser muito menos frequente que o “tradução do português para uma língua estrangeira”. Mas é a definição francesa do termo, que deve ser encontrada em mais de um dicionário francês.

Vá lá confiar nesses dicionários!