Durante uma das Oficinas de Técnicas de Tradução que a Kelli e eu estamos apresentando via Aulavox, surgiu uma discussão sobre “versão”, sempre um assunto interessante. Tão interssante que até vou escrever dois artigos sobre o assunto. Hoje vou escrever sobre o termo “versão”, em si. Em seguida, escrevo sobre a “versão” como atividade.

Você notou que eu escrevo “versão” entre aspas? Pois é: não gosto do termo. Sei que no jargão da maioria dos tradutores, “versão” significa “tradução feita do português para uma língua estrangeira”, embora haja algumas exceções. “Versão brasileira”, por exemplo, é o que se vê no fim dos filmes dublados e significa a tradução para o português. O mesmo se aplica às músicas. Quando se fala em “versão”, queremos dizer “a letra em português que alguém escreveu para algo originalmente cantado em língua estrangeira”. Mas, normalmente, “versão”, de fato, é do português para uma língua estrangeira, pelo menos no Brasil. Assim diz o SINTRA, assim dizem as Juntas Comerciais, assim se diz nas faculdades. Entretanto, é uso exclusivamente brasileiro: nosso colega, e, atrevo-me a dizer, meu amigo, João Roque Dias me confirma que em Portugal o uso é desconhecido, embora lá haja quem traduza do português para línguas estrangeiras.

Em inglês, então, nem se fala. Você pode traduzir into English ou from English, você pode criar an English version ou a Portuguese version de um texto, mas ninguém vai entender version como sinônimo de tradução para uma língua estranteira. É muito divertido ver, nos sites de algumas agências brasileiras coisas do tipo translations and versions exclusively by native speakers, porque uma coisa dessas ou foi escrita por um brasileiro ou por um falante nativo do inglês que já teve sua língua materna muito contaminada pelo português. E como isso é comum! A quantidade de pessoas que tem o inglês por primeira língua e que acaba usando “version” no sentido de “tradução para o inglês”, depois de uns quantos anos no Brasil, é uma barbaridade. Quer dizer, isso pega!

Aliás, o uso está ficando antiquado, mas nos livros didáticos ingleses mais antigos, translation era para o inglês e a tradução para um idioma estrangeiro era composition. Não acredita? Procure no Google “Greek composition” e “Latin composition” e veja o que vai encontrar: livros didáticos com textos em inglês para serem traduzido para o latim e grego. Mas isso é coisa de professor, nenhuma agência vai perguntar para você quando você cobra para fazer composition.

Existe em francês version, que é o oposto de thème (como me confirma Isabel Rupaud, velha amiga e competente tradutora de francês), também com uso relacionado ao ambiente escolar. Mas têm o significado oposto: version, para um estudante francês, é a tradução de uma língua estrangeira para o francês. Quando o estudante francês traduz de sua língua para uma língua estrangeira, diz que fez um thème.

Ah, talvez daí venha a história, então! “Version” > “versão” é para o francês, entende? Então, quando o aluno brasileiro de ginásio fazia um texto do português para o francês, fazia “version”. Quando começaram a fazer para o inglês, faziam “versões”.

Pode fazer, ou não, mas vou parar por aqui e volto amanhã com a conclusão do meu raciocínio.