Escreve a Marcela Medeiros, em um comentário à postagem anterior:
Sugestão de postagem para o blogue:
Por que alguns tradutores são tão lentos?
- estão envolvidos com mais de um projeto ao mesmo tempo e se dedicam mais aos que pagam mais
- têm dificuldades com o teclado do computador, especialmente porque nunca fizeram curso de digitação ou trabalharam anteriormente com computador
- são meticulosos/zelosos (e, talvez, inseguros) demais: pesquisam TODAS as palavras que encontram
- pesquisam demais porque não têm muita experiência/vivência com os idiomas com que trabalham
- falta de disciplina e foco/concentração: acabam fazendo muitas outras coisas quando deveriam estar traduzindo
- traduzir, às vezes, não é prioritário: é “bico”
- falta de profissionalismo
O que você diria à Marcela? Vou dar minha opinião na terça-feira que vem, mas gostaria de ler a sua antes.
Tradutor Profissional
24 Comentários
janeiro 31, 2012 às 7:00 am
Reconheço minha lentidão e convivo com ela numa boa – jamais deixei de cumprir os prazos. Sou extremamente meticuloso e isso se reflete na qualidade do produto final. Nessa meticulosidade extremada, beirando o perfeccionismo, talvez esteja embutida uma certa dose de insegurança, mas minha experiência mostra que ela se deve principalmente ao valor que dou à expressão “já que vai fazer, que faça bem feito”. Uma colega famosíssima certa vez criticou minha lentidão, mas ao revisar o trabalho dela decidi que a lentidão é preferível ao relaxo/desleixo que geralmente acompanha a rapidez. Muitos clientes não percebem/valorizam a diferença, mas o que importa é minha consciência e não a do cliente. Tenho dito.
janeiro 31, 2012 às 8:05 am
Eu concordo com o Paulo Leitão e com aquele ditado que diz que “A pressa é inimiga da perfeição”. No meu caso é uma regra que não posso desobedecer. Se eu fizer rápido, os erros vão passar despercebidos, e para mim a qualidade é o que realmente importa na tradução. Sempre que dou um prazo para uma tradução, as pessoas querem que seja em menos tempo, mas eu não abro mão, pois se eu fizer um trabalho ruim, o cliente não vai lembrar da minha rapidez, e sim da má qualidade da tradução. Resultado: perco esse e outros clientes que poderiam vir através de indicações. Sobre pesquisar, isso é mais que necessário e dependendo da área que estamos trabalhando, toma muito tempo. Não acho que tem a ver com insegurança, mas com vontade de fazer a melhor tradução possível, afinal, quem está 100% seguro de todos os idiomas? Se alguém disser que sabe tão bem um idioma que não precisa pesquisar nada, será a última pessoa que eu entregarei um texto para traduzir.
janeiro 31, 2012 às 8:45 am
Defina lento! Eu achava que era lenta porque alguns clientes sempre queriam um prazo menor, mas levei um susto quando um editor disse que eu era a melhor tradutora dele e ainda por cima uma das mais rápidas! No decorrer dos anos, no contato com colegas, fui percebendo que não estou nem entre as super-rápidas nem entre as muito lentas. Além disso, minha velocidade varia muito dependendo do texto e do dia. Concordo com o Paulo e com a Ana: não dá para economizar em tempo de pesquisa sem sofrer as consequências.
janeiro 31, 2012 às 10:16 am
Estou com a Sonia Augusto…
Primeiro precisa definir o que é lentidão.
Depois, precisa verificar o tipo de texto.
Tenho prática com medicina de diagnóstico (ultrassom, ressonância e equipamentos do tipo). Chego a fazer 5 mil por dia, usando ferramenta de tradução, claro.
Agora, se for uma área que não conheço ou de termos muito técnicos de mecânica, por ex, que traduzo volta e meia, chego a fazer 1.500/dia.
Isso é lento?
janeiro 31, 2012 às 11:27 am
Acho que a Sonia disse tudo: defina lento. Porque, da minha pouca experiência, acho que se um tradutor conseguisse, depois de um pacto com o demo ou com São Jê, traduzir umas 5 mil palavras por hora, ainda assim ia ter cliente arrumando urgência maior. E provavelmente jurando de pé junto que conhece um tradutor que faz mais.
Tem gente que digita mais rápido ou mais devagar, tem texto que é mais bem escrito e flui melhor, tem gente que trabalha com CAT e gente que trabalha sem CAT, tem sempre aquela meia dúzia de palavras que vc sempre tem que passar um tempão pesquisando. Mas acho que o mais importante é você se conhecer, conhecer seu ritmo e se sentir confortável com ele. E a partir daí você procura um cliente perfeccionista que vá te dar prazo, um cheio de urgências que topa um Gudenalf desde que seja feito em meia hora ou o que quer que vá se encaixar melhor com o seu ritmo e jeito de trabalhar.
janeiro 31, 2012 às 1:00 pm
Sem contar a redação do texto original…
janeiro 31, 2012 às 2:31 pm
Um dos possíveis motivos para a “lentidão”, é que há um prazer enorme para mim quando pesquiso uma palavra difícil e não só encontro o seu significado, como releio o texto e acho que ficou perfeito. Nós, tradutores, somos detetives da melhor palavra: daquela que não só traduz o texto em si, mas o que o escritor quis dizer com ele. Acho que Carlos Drummond de Andrade definiu bem esta nossa paixão pela palavra exata no poema A Palavra Mágica, o qual transcrevo aqui:
“Certa palavra dorme
Na sombra de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida,
A senha do mundo.
Vou procurá-la…
Vou procurá-la a vida inteira,
No mundo todo.
Se tarda o encontro,
Se não a encontro… não desanimo,
Procuro sempre!
Procuro sempre,
E minha procura ficará sendo…
Minha Palavra!
janeiro 31, 2012 às 2:55 pm
Lentos? Hmm… Se a gente pensar no tempo que gastaram até o texto original ficar pronto, resolverem fazer alguma coisa com aquilo e aí lembrar que é preciso traduzir, acho que somos é rápidos!
janeiro 31, 2012 às 2:57 pm
Interessante saber a profissão da Marcela: é tradutora ou gerente de projetos ou cliente? Como já foi dito aqui, há vários fatores que determinam a “lentidão” do tradutor: a definição que cada um faz do que seja “lento”, a qualidade do original, expectativas não realísticas, ansiedade do “dono” do projeto, ignorância quanto ao trabalho que fazemos, problemas inesperados, incapacidade do “profissional”… A lista é grande e muitos de seus elementos podem ser também classificados como “desculpas”.
Minha resposta para a Marcela é ifgual à de mutos acima: como você define lentidão para que eu possa saber como responder?
janeiro 31, 2012 às 3:55 pm
Gio, eu também estou curioso, mas acho que, mesmo que ela se manifeste, vou guardar a informação até o fim. Já me fiz a mesma pergunta mais de uma vez.
janeiro 31, 2012 às 7:06 pm
Eu vejo por dois lados.
De um lado, sou mais lenta do que deveria porque sou multi-tarefa. Ao mesmo tempo que estou traduzindo, pesquiso, respondo e-mail de cliente, falo no MSN com a secretária etc e tal. Mas basta por o “Focus Booster” (já usaram?) na tela e opera-se o milagre da produtividade, pois me obrigo a só mudar de tarefa a cada 30min.
De outro, não sou lenta coisa nenhuma. É o mundo lá fora que não sabe nada disso que todos disseram aí em cima. Quanto tempo levaram para cometer o original? Aí a tradução vai ser pá-puf? Por acaso dá para resolver rapidinho a alta exigência de pesquisa, o original mal redigido, a indecisão do cliente sobre afinal qual é a versão final? Aí até acho que somos bem rápidos. Na maioria das vezes entrego os trabalhos com uma sensação de que poderia ter feito melhor se pudesse ter sido mais lenta, ou seja, se tivesse mais tempo.
janeiro 31, 2012 às 10:32 pm
bingo, gio: uma vez recebi perguntas para uma entrevista por e-mail – duas delas me deixaram tiririca:
“- Na sua opinião, por que ocorrem tantos atrasos com os tradutores? Como o editorial poderia se proteger deles?”
“- Ser tradutor é uma profissão de risco? (Essa pergunta … se baseia na grande ocorrência de tragédias com tradutores que frequentemente fico sabendo que tiveram de passar por cirurgias de emergência ou perderam parentes, computadores, arquivos ou até mesmo suas casas etc.)”
tivemos uma intensa troca de emails, até que a entrevistadora (que por acaso vinha a ser também uma assistente editorial – daí, mutatis mutandis, o “bingo” com que saudei o gio) entendesse que eu só podia falar por mim, e que no meu vocabulário não existe a palavra “atraso”. mas, além de tiririca, fiquei também perplexa ao saber da “fama” que têm “os tradutores” – essa entidade genérica que nem existe – entre alguns (vários? muitos?) editores.
claro, a maneira como foi colocada a questão, seja pela entrevistadora, seja por marcela medeiros, é um pouco tosca, não muito cortês, e parece indicar mais seus próprios interesses específicos do que de um genuíno interesse pela atividade de tradução. em todo caso, parece também indicar a ocorrência de um fenômeno de certa frequência. se a questão fosse colocada de maneira um pouco mais elaborada, acuando menos as pessoas, poderia ser interessante.
fevereiro 1, 2012 às 4:23 pm
Achei ótima a questão da Bete, e acho que já vi comentarem em algum lugar: são 6 meses pra escrever o texto, fazer a pesquisa, revisar, pensar. Mas a tradução, já que é só colocar em outra língua mesmo, dá pra fazer em dois dias né?
fevereiro 1, 2012 às 4:27 pm
Danilo e colegas,
A prudência manda verificar, sempre, se a pergunta (de um entrevistador, numa enquete, venha de onde vier) é correta. Não me parece ser o caso, aqui. Que tal inverter a equação, perguntando: “Por que os clientes, e o mercado editorial, salvo raras exceções, têm tanta pressa?”. Se não fizermos esta pergunta, a discussão ficará capenga, já que a questão inicial induz a equívocos. Abraços.
fevereiro 1, 2012 às 4:44 pm
Lentos ou impontuais?
Sou realmente lenta quando o assunto requer muita pesquisa. Mas aí quando sinto que vai ocorrer atraso por causa disso, notifico o cliente. Ou mesmo antes de dar um prazo, vendo que o assunto é difícil, já dou uma data folgada. Posso ser às vezes lenta, mas não sou impontual.
Não sei que experiência a Marcela teve com tradutores, mas pelo visto foi muito ruim.
fevereiro 1, 2012 às 4:57 pm
Lentidão é mesmo algo difícil de se compreender. Não se pode dizer se algo é lento a menos que se tenha algum parâmetro com que se comparar. Então, os tradutores são lentos com relação a quê (ou quem)?
Francamente, acredito que não se pode expressar como lentidão todo o tempo que é necessário para a execução do trabalho. Um trabalho que não poderia ser realizado em menos tempo não pode ser lento, por maior que seja a quantia de horas trabalhadas. Mesmo porque tal lentidão seria um prejuízo para o tradutor, que poderia utilizar essas horas desperdiçadas de forma mais produtiva.
A resposta mal educada para essa pergunta vem do raciocínio lógico: Você consegue fazer em tempo menor? Se sim, então talvez não precise de um tradutor. Se não, oras, então não há lentidão!
Considero dar uma resposta mal educada pela categoria da pergunta. As alternativas dadas para a resposta não compreendem todas as possibilidades (nem isso seria possível), e não avalia bem o interlocutor a quem ela se dirige.
Os tradutores – genericamente falando, pois em todo ramo há todo tipo de profissional – são profissionais sérios, além de adultos e responsáveis. Não se pode lançar uma pergunta sobre todos os tradutores dirigindo-lhes uma série de acusações (dificuldades com o computador? insegurança? falta de disciplina? falta de profissionalismo?) que não servem a muitos. É injusto e até ofensivo.
Sendo assim, sugiro à Marcela que tente se desfazer do paradigma de tradutor que ela deve ter criado (pelas inferências, me parece ser um senhor idoso, com dificuldades de compreender a tecnologia, preguiçoso e inseguro, e que utiliza-se da tradução como hobby, não como profissão, alguém que caiu de para-quedas ‘nesse negócio de traduzir’ e que gosta de ganhar uns trocados com isso de vez em quando), quem sabe a partir de alguma experiêcia ruim, e nos conte mediante qual parâmetro se mede a lentidão de um tradutor…
fevereiro 1, 2012 às 5:51 pm
Danilo, esse tema me perseguiu essa semana e acabei escrevendo um pequeno artigo no meu blog e fazendo referência ao seu aqui. Estou curiosa para ler o que você prometeu postar aqui na semana que vem!
fevereiro 1, 2012 às 5:59 pm
O endereço da postagem da Bete é http://traducaoeinterculturalidade.wordpress.com/2012/02/01/rapidos-no-gatilho-mas-quem-acerta-o-alvo/
Vai lá ler.
fevereiro 1, 2012 às 6:39 pm
- Por que o original que está na gaveta do editor, e cuja tradução, que já sei de antemão que vai ter muita pesquisa e que “vai ter um prazo ótimo”, só vai sair daquela gaveta e ser mandado para mim quando o prazo for para antes de ontem?
- Por que a tradução que está parada por algum problema editorial, falta de pagamento de alguma parcela devida, ou alguma questão que precisa da resposta do editor não vai ter esses tempo prorrogado no prazo?
- Por que após quase me matar traduzindo umas 14 horas por dia, entrego quase morta a tradução e fico sabendo que, no fim das contas, não havia pressa nenhuma?
fevereiro 1, 2012 às 6:48 pm
Tudo é relativo. Eu não considero lentidão o respeito pelo trabalho do cliente e pela minha responsabilidade de entregar-lhe um trabalho bem feito e do qual eu tenha orgulho em pôr o meu nome. Minhas estimativas se aplicam a tempo e dinheiro. Se o assunto não é da minha praia maias frequentada, explico ao cliente e sugiro um colega mais capacitado. É parte de meu brio profissional satisfazer as necessidades do cliente sempre que possível e da melhor maneira possível. Às vezes, recusando-me a aceitar um projeto é a melhor coisa que posso fazer pelo cliente. Feito!
Outras vezes, é necessário muito tato para “educar” o cliente. Vinte e duas mil palavras em 24 horas? Não daria nem para simplesmente datilografar o material em 24 horas mantendo a qualidade e precisão. Tem-se que recorrer a uma equipe de tradutores, o que exige gerenciamento do Projeto, controle de qualidade, controle de terminologia… E por essas e outras o cliente pode dizer que eu seja lenta por não satisfazer uma expectativa irreal dele.
Felizmente, ele não é o único cliente no mercado.
fevereiro 2, 2012 às 8:45 pm
Concordo com todos e especialmente com a Lia, pois penso que realmente a área do texto traduzido faz muita diferença, pois se é um texto com vocabulário que já dominamos fica muito mais fácil, principalmente se tivermos Memória de Tradução, mas se é um texto de uma área que pegamos vez ou outra realmente a pesquisa vai demandar muito mais tempo e assim a tradução, isso se o tradutor quiser fazer uma tradução com boa qualidade né, porque há os que não se importam com isso……
fevereiro 5, 2012 às 7:45 am
E precisa ver também o humor do tradutor. Tem dia que rende, tem dia em que a concentração resolver ir no xópim passear. Neste dias, não tem texto bem escrito, fluente e CAT que dê conta. O melhor a fazer é ir passear com a concentração.
Eu estou longe de ser perfeccionista e realmente não tenho paciência pra perder horas num parágrafo. Pra mim, existe a tradução boa e ideal, não a perfeita.
Sou multitarefa também, pois administro uma lista de tradutores jurídicos, estou em comitês em 3 associações de tradutores, dou aula, tenho que dar conta de aluno mala, burocracia acadêmica e nem por isso entreguei trabalho fora do prazo (se preciso, converso com o cliente e sugiro entregar no dia seguinte, ainda mais se o prazo for na sexta, geralmente consigo entregar na segunda).
Eu acho que vai do ritmo de cada um.
Agora, falta de profissionalismo é outra coisa e não tem nada a ver com “lentidão”.
fevereiro 6, 2012 às 11:08 pm
Somos “lentos” porque escrevemos livros inteiros (pelo menos no caso do tradutor literário), e ninguém escreve um livro de 200, 400 páginas em uma semana ou um mês. Tradutor não pega palavras em outra língua e simplesmente as traduz para o português, como muitos pensam. Tradutor também é escritor. Cada palavra encontrada são possibilidades diferentes, e elas precisam fazer sentido na frase, e a frase precisa fazer sentido no parágrafo, o parágrafo fazer sentido no capítulo, que precisa fazer sentido no livro. Nós escrevemos cinco, seis livros por ano. E escrever livros (nosso ou dos outros) é uma tremenda responsabilidade. Não dá pra fazer isso correndo. Sexo corrido é bom? O mesmo acontece com uma tradução apressada: não costuma dar em boa coisa.
fevereiro 10, 2012 às 7:53 am
Resolvi comentar só pra fechar o número 25, que adoro, pois tudo já foi dito pelos sensatos colegas – assino embaixo! Ah, faltou dizer uma coisa: LENTA É A VÓ!!!