Quanto devo cobrar?
16 segunda-feira jul 2012
Escrito por Danilo | Categoria: Português | Tags:preços, principiantes
Remexendo no HD, encontrei este texto, que deve ter lá uns bons cinco anos. É a resposta a alguém chamada Letícia, que queria saber quanto cobrar. Deve ter sido usado em alguma lista de discussão. Achei que valia a pena postar. Espero que você goste.
Trocudo em miados, Letícia, você está querendo saber quanto cobrar? Podia ter dito logo de cara. É a pergunta mais fácil de fazer e mais difícil de responder entre todas as que você pode postar aqui.
Vou te contar algumas coisas, que não vão ajudar muito, mas podem dar a você um retrato melhor da situação.
Os preços vigentes no mercado variam muito. Provavelmente de 3 centavos de real a 20 centavos de dólar por palavra ou mais, o que é uma dispersão enorme. A concorrência é acirradíssima e a turma mente sobre preços deslavadamente, para forçar OS OUTROS a elevarem suas taxas e facilitar seu próprio mercado. O cara jura, de pés juntos que, por exemplo, não trabalha por menos de 15 centavos por palavra, mas, na verdade, fica todo contente quando consegue serviço por dez. Por outro lado, há muitos clientes que, tendo conseguido um orçamento de 100, ligam para você e dizem que tem um cara bom, muito bom, com doutorado, viveu nos Estados Unidos dez anos, conhecido na praça e, inclusive, com excelente hálito, que está ansioso por fazer o serviço por 80 e talvez você, que é uma Maria Ninguém, queira cobrir o orçamento dele. E tem agências jurando que ABSOLUTAMENTE NINGUÉM paga mais do que cinco centavos por palavra, quando quem está por dentro do lance sabe que aí pra fora tem muito trabalho pago acima de dez centavos DE DÓLAR. Muito cara que alega que cobra 10, alega que quem cobra menos do que ele “avilta” a profissão e que os caras que cobram mais “são uns exploradores”. Tudo isso, Letícia, faz parte da vida.
Mas, mesmo que você tivesse pleno acesso a informações absolutamente precisas sobre os preços cobrados pelos seus colegas, não ia adiantar muito, porque o seu preço é o seu preço, não o meu.
A turma de vez em quando fala em ‘preço justo’ mas é só ter feito dois meses de curso de economia que você descobre que isso não existe. O que existe é o que o mercado está disposto a pagar pelo seu serviço. E sendo o mercado de traduções a bagunça que é, esse valor é muito difícil de estabelecer. Na verdade, você vai estabelecendo por tentativa e erro. Se você está com muito serviço, aumente os preços, ou comece a recusar os mais mal pagos. Se você está sem serviço, o que cair na rede é peixe. Essa é a regra dos veteranos, dos sobreviventes.
Teoricamente, você deveria cobrar mais pelos serviços mais complexos. Por exemplo, se você cobra 10 por palavra para traduzir um arquivo Word, deveria cobrar 12 para traduzir um arquivo em PowerPoint, porque toma mais tempo. Na verdade, muito depende se você está em condições de fazer essas coisas. Pode estar e pode não estar e é só você que pode dizer isso.
Também tem a história do mercado em que você atua: editora paga menos que agência, agência paga menos do que particular, localização paga menos do que científico, médico, financeiro e jurídico. Literatura paga mal e, mesmo assim, te chamam de mercenária, porque está cheio de gente que trabalha de graça e assim por diante. Se você sabe usar memória de tradução e é bamba em computador, pode conseguir coisas que outros tradutores não podem — e vai por aí adiante.
Em outras palavras, Letícia, é um misto de selva com pântano, recobertos de areia movediça, daquela onde se afundavam os inimigos do Tarzan.
Por fim, a pergunta não tem nada de boba: é, talvez, a pergunta mais importante que se possa fazer nesta lista e, por isso, a mais difícil de responder
Tradutor Profissional
4 Comentários
julho 16, 2012 às 6:50 pm
Mestre Danilo, é sempre um deleite ler seus textos sobre qualquer coisa que escreva. Mesmo quando não concordo com a sua opinião, admito e admiro-me de serem sempre bem talhados, realistas, maduros e precisos. Forte abraço.
julho 17, 2012 às 6:26 pm
Se você me disser com que parte você não concorda, é uma grande ajuda.
julho 16, 2012 às 7:29 pm
Esse é um assunto que ainda me assombra. Acompanho o blog há algum tempo, e, ironicamente, a cada três dúvidas sanadas, outras cinco me aparecem.
E uma dessas, aliás, é a seguinte: Cobrando por cada caractere, considera-se o trabalho bruto ou a tradução pronta? Baseando-me nesse post, o mesmo se dá a gosto, certo?
julho 17, 2012 às 10:29 am
Embora eu prefira cobrar com base no número de palavras do original, há outros sistemas em uso, cada um com suas vantagens e desvantagens. Há quem prefira quantificar seu trabalho com base no original, há quem prefira quantificar com base na tradução, há quem prefira cobrar por palavra, caractere, linha ou palavra, há quem cobre os espaços, há quem não cobre. E, evidentemente, há clientes que preferem um sistema ou o outro.
O profissional, embora tenha direito às suas preferências, tem o dever de flexibilidade que o obriga a conhecer as vantagens e desvantagens de cada sistema e a aprender a cotar baseado em qualquer um deles. Porque o cliente tem lá o seu sistema predileto e vai querer uma cotação baseada nele, até para comparar com outras. Não adianta você achar que “o correto” é cotar baseado na raiz semicúbica da recíproca do número de pontos de interrogação encontrados no texto, se o cliente não entende ou não aceita sua maneira de quantificar o trabalho.
Obrigado pelo comentário e volte sempre.