Está, de novo, pipocando uma discussão aqui com a turma que “quer só um número”. Que número?

Conheço gente que tira dez mil por mês, dando duro em serviço bem pago.

Não sei se cheguei a ganhar tanto ou se excedi esse valor, porque, em quarenta anos de exercício profissional, já cobrei em dólar, euro, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, real, ORTN, OTN e Deus sabe mais o quê e passei por tanta inflação que comparar os dez cruzeiros por lauda que me pagava a Editora Atlas em 1970 com os 18 centavos de dólar por palavra que recebi de uma organização internacional ainda esses dias é completamente impossível.

Hoje, mesmo com os preços que cobro, não conseguiria ganhar dez mil reais por mês em média, porque minha idade dita um limite para o tanto que traduzo e tenho dedicado cada vez mais tempo a outras atividades.

Conheço gente que, depois de seis meses ganhando menos de um salário mínimo por mês, desistiu.

Por que tão pouco? Em parte por falta de competência. É surpreendente quanta gente procura viver de traduzir sem ter competência para isso.  Nem curso superior garante competência para traduzir. Tenho uma amiga, formada em faculdade conhecida, que não é capaz de traduzir absolutamente nada e sempre damos boas risadas sobre sua incapacidade.  Curiosamente, dirige uma agência com habilidade e sucesso. Conheço outros que atrasam entregas, fazem traduções viesadas porque não não concordam com o que diz o original, escrevem um português que dá nojo aos cães, se metem a escrever inglês quando nem português sabem e vai por aí em fora. A fauna é variada.

Outros falham porque não sabem se organizar nem procurar serviço, ficando à espera de que alguém descubra seu talento. Fora os que não sabem lidar com cliente, ou têm ataques de diários de estrelismo.

Então, fica assim: o ganho de um tradutor vai de salário mínimo até dez mil reais por mês (lembrando que não temos FGTS, INSS, férias, 13º, nem convênio, é menos que parece — mas lembrando que a maioria de nós trabalha em casa e não tem que enfrentar trânsito, é mais do que se imagina).

Eu não vou dizer quanto ganhei no ano passado. Nem é representativo de uma “média”, nem é típico da categoria nem muito menos da conta de ninguém.

Ficar me cutucando para eu dizer quanto você vai ganhar como tradutor é bobagem. É como perguntar quanto ganha o dono de um bar ou de um salão de barbeiro. Tem os que ganham muito, tem os que perdem até as calças. Como é que eu vou saber em que categoria você se enquadra?

Deu para entender, agora?