No Facebook apareceu uma discussão muito interessante, sobre esta matéria publicada no jornal “O Globo”. Não li a tradução, nem tampouco o original, por isso, fico calado sobre o assunto. Mas me deu vontade de contar e analisar uma história acontecida comigo.

Estava eu posto em sossego, lendo um livrinho, quando topo com uma referência a uma melodia romântica de Antonio Vivaldi.  Romântico, quando se fala em música clássica, é um termo com um significado muito preciso, que não se aplica à música de Vivaldi. Falar em romantismo de Vivaldi é o mesmo que falar nos portos marítimos do Himalaia ou das geleiras amazônicas. Quer dizer, tinha encontrado um erro material na tradução — o que não quer dizer um erro de tradução.  Para saber se era um erro de tradução, teria que cotejar a tradução com o original, porque ao encontrar um erro material numa tradução não posso dizer que seja erro da tradução, pode ser um erro do original e não se pode culpar a tradução pelos erros do original.

Então, para saber se o erro da tradução era um erro de tradução precisava ler o original. Por sorte, ou por mal dos pecados, como diria minha mãe, tinha o original à mão. Fui lá ver e, no lugar do romântico, estava lyrical. Ah, bom, falar em lirismo em Vivaldi está dentro dos cânones. Foi um erro de tradução. Se o original falasse em romantic, seria um erro do original, não de tradução.

Agora, alguém me pergunta se o tradutor não tinha a obrigação de corrigir um erro desse quilate. Boa pergunta. Eu não corrigiria. Porque, errada ou não, seria a postura do autor e ele tem direito de expressar sua opinião e eu não sou censor.  Se o autor acha que Vivaldi é romântico, se o editor quer publicar um livro desse cara e alguém quiser ler, não tenho direito de impedir. Além disso, eu entendo de música porque gosto de música, mas tradutor não tem obrigação de saber dessas coisas. Traduzir direito já é um perereco, se for ficar atrás de conferir tudo o que o autor diz, é perereco ao cubo.

Mas, retornando ao assunto, como é que o lyrical foi virar romântico? Deus sabe! Pode ser um erro do tradutor, claro. Mas também pode ser um erro de revisão. Quer dizer, o erro da tradução, que era um erro de tradução, pode não ser um erro do tradutor.  Talvez o tradutor tenha escrito lírico e um dos diversos revisores, preparadores ou palpiteiros que mexeu na tradução ter trocado o direito pelo torto. Não seria a primeira vez. Por que essas coisas acontecem?

Pode ser pelo horror à literalidade. Muita gente tem repugnância pela tradução literal e pavor de falsos cognatos. Encontrou lyrical, tem que traduzir por alguma coisa que não seja lírico, porque lírico, além de ser literal, ainda é cognato e sabe-se lá, porque não se pode confiar em cognatos. Leram o Agenor e não entenderam.

Uma segunda razão pode ser a mania de que tradução tem que deixar o texto simplesinho para o leitor brasileiro e alguém pode ter achado que romântico e lírico são meio que a mesma coisa, só que o primeiro é mais facinho que o segundo. Essas coisas, dizem, estão até nas instruções para tradutores distribuídas por algumas editoras e temos a história de um colega que teve um trabalho infernal para traduzir um texto arrevesado de um autor arrevesado de um inglês arrevesado para um português igualmente arrevesado. Levou um susto quando viu o livro impresso: estava tudo em um português limpinho, bonitinho, acessível a qualquer criança que conseguisse ler João e Maria. Foi reclamar na editora, disseram que era “o estilo da casa”. Mas era o nome do tradutor que estava na página de rosto. Como é que fica?

Por isso eu acho que os prêmios de tradução deveriam ser concedidos à equipe toda: tradutor e revisores. Não existe boa tradução sem uma boa revisão e uma má revisão pode arruinar uma excelente tradução.